A semana de 15 a 19 de junho de 2026 marcou um ponto de virada: na quarta-feira (17), Trump assinou o acordo de paz com o Irã, encerrando quase quatro meses de guerra, no mesmo dia em que o Fed estreou o novo presidente Kevin Warsh e o Copom cortou a Selic para 14,25%. Mas o alívio geopolítico não se traduziu em alívio para o mercado: o Focus registrou a 14ª alta consecutiva no IPCA de 2026, que chegou a 5,30%, e o Ibovespa fechou a “Super Quarta” em queda após o Fed sinalizar possível alta de juros americanos ainda este ano. O dólar voltou a R$ 5,17.

1. Inflação: Focus registra 14ª alta consecutiva: IPCA chega a 5,30%
O Boletim Focus divulgado na segunda-feira (15) mostrou a estimativa para o IPCA de 2026 subindo de 5,11% para 5,30%, na 14ª alta consecutiva. Em fevereiro, antes da guerra, o IPCA projetado era de 3,91%, a deterioração já soma quase 1,4 ponto percentual em pouco mais de três meses.
Na quarta-feira (17), o próprio Banco Central reforçou esse diagnóstico em seu comunicado de decisão de juros. O Banco Central elevou sua estimativa para o IPCA de 2026, de 4,6% para 5,2%. A elevação simultânea do Focus e da projeção oficial do BC mostra que a deterioração não é percepção isolada de mercado, é também o diagnóstico da própria autoridade monetária.
2 Juros: Copom corta Selic para 14,25%, mas deixa próximos passos em aberto
O Copom decidiu, por unanimidade, cortar a Selic em 0,25 ponto percentual, para 14,25% ao ano, a terceira queda seguida. O comitê deixou os próximos passos em aberto, afirmando que a restrição acumulada pela política monetária permite diferentes trajetórias de juros compatíveis com a convergência da inflação à meta no primeiro trimestre de 2028.
No comunicado, a autoridade monetária destacou que o ambiente externo permanece incerto em função da indefinição sobre os termos do acordo para cessar os conflitos armados no Oriente Médio. Tal cenário, segundo o Copom, exige cautela por parte de países emergentes diante da elevação da volatilidade de preços de ativos e commodities. A próxima reunião está marcada para 4 e 5 de agosto.
3. Crescimento Econômico: Copom reconhece aceleração da atividade no 1º trimestre, mas mercado de trabalho começa a perder força
No comunicado da decisão de juros divulgado na quarta-feira (17), o Comitê de Política Monetária disse que o conjunto dos indicadores mostra aceleração da atividade econômica no primeiro trimestre do ano, “com setores mais cíclicos voltando a desempenhar papel significativo, e mercado de trabalho ainda com sinais de resiliência.”
Ao mesmo tempo, o Copom destacou que os indicadores correntes de atividade mostram recuperação em relação ao último trimestre de 2025, mas seguem consistentes com uma trajetória de desaceleração no acumulado de 2026, cenário ainda marcado por “expectativas desancoradas, projeções de inflação elevadas, e pressões no mercado de trabalho.”
O diagnóstico do próprio Banco Central confirma um quadro de duas faces: a economia entrou no ano com força, fruto do consumo das famílias e da recuperação de setores cíclicos —, mas o ritmo já dá sinais de perda de fôlego ao longo do ano, em parte pelo efeito acumulado dos juros altos
4. Mercado de Capitais: Ibovespa tem forte volatilidade na “Super Quarta” e fecha em queda mesmo com acordo de paz assinado
O Ibovespa Futuro operava em baixa, na terça-feira (16), mesmo com o acordo de paz provisório entre EUA e Irã reduzindo o prêmio de risco geopolítico nos mercados globais, os investidores mantinham o foco nas decisões de política monetária do Fed e do Copom, ambas previstas para o dia seguinte.
Na quarta-feira (17), a “Super Quarta”, com decisões de Fed e Copom no mesmo dia, o índice teve forte volatilidade. Antes da decisão do Fed, por volta das 15h, o Ibovespa chegava a subir cerca de 1%. Após o comunicado do banco central americano, o mercado foi reduzindo os ganhos, e a baixa se intensificou na reta final do pregão: o índice fechou em queda de 0,70%, aos 168.453,93 pontos, após cair cerca de 1%, a 167.915,71 pontos, na mínima do dia.
Mesmo com a confirmação da assinatura do acordo de paz, na quinta-feira (18), o ambiente mais tranquilo no exterior não foi suficiente para sustentar uma recuperação. O recuo de 3,48% do petróleo Brent e de 4,09% do WTI, além do declínio de 1,13% do minério de ferro em Dalian, impuseram cautela ao pregão, enquanto investidores digeriam o comunicado do Copom.
5. Câmbio: Dólar sobe 1,25% após Fed e Copom na mesma quarta-feira e volta a R$ 5,17
Na quarta-feira (17), o dólar à vista fechou em alta de 0,41%, a R$ 5,1104, depois de o Fed manter a taxa básica de juros americana entre 3,50% e 3,75%, mas com projeções apontando possível aumento ainda em 2026, movimento que fortaleceu o dólar frente às principais moedas globais.
O efeito se intensificou no dia seguinte. Na quinta-feira (18), o dólar à vista fechou com alta de 1,25%, a R$ 5,1745. No ano, a moeda passou a acumular queda de 5,73% frente ao real. O movimento refletiu o contraste entre as duas decisões de política monetária da véspera: enquanto o Federal Reserve sinalizou que sua taxa de referência pode subir ainda em 2026, o Copom, ao cortar a Selic, preparou terreno para mais reduções de juros no Brasil, um diferencial que reduziu a atratividade relativa dos ativos brasileiros.
EUA: Acordo de paz com o Irã é assinado e Fed estreia Kevin Warsh com tom mais duro
Na quarta-feira (17), Trump assinou um acordo de paz com o Irã que prevê a diluição do estoque de urânio altamente enriquecido iraniano em troca do alívio das sanções americanas. O pacto entrou em vigor imediatamente, com prazo de 60 dias para negociações sobre o programa nuclear.
No mesmo dia, o Fed teve sua primeira reunião sob o comando de Kevin Warsh. O Fed manteve os juros entre 3,50% e 3,75%, mas retirou do comunicado trechos que indicavam viés para cortes futuros. As novas projeções mostraram que 9 dos 19 membros do comitê acreditam que será necessário subir os juros ainda em 2026 — nenhum deles tinha essa opinião há apenas três meses. A mediana de projeção para o índice de inflação cheio do Fed saltou de 2,7% para 3,6% em 2026, e o núcleo avançou de 2,7% para 3,3%.
China: Vendas no varejo caem pela primeira vez em mais de 3 anos
Dados divulgados na terça-feira (16) mostraram que as vendas no varejo da China caíram pela primeira vez em mais de três anos em maio, sinalizando aprofundamento da fraqueza no consumo interno. A produção industrial, por sua vez, registrou aumento de 4,5% em maio, superando a estimativa de 4,3%. A taxa de desemprego caiu para 5,1% em maio, ante 5,2% em abril.
O quadro confirma um padrão de “duas velocidades” na economia chinesa: fábricas seguindo resilientes, beneficiadas pela demanda global por tecnologia, enquanto o consumo das famílias chinesas enfraquece, refletindo a cautela do consumidor mesmo com o acordo de paz assinado.
Zona do Euro. Inflação confirma alta para 3,2% em maio, dado final supera abril
A inflação ao consumidor da zona do euro acelerou para 3,2% em maio na comparação anual, confirmando a leitura preliminar divulgada pela Eurostat. O resultado ficou acima da meta de 2% do BCE e superou a alta de 2,6% registrada em abril. O dado, confirmado na quarta-feira (17), reforça a trajetória de deterioração observada desde o início da guerra.
A confirmação do número trouxe reação imediata de um dirigente do BCE: Gediminas Simkus afirmou que ao menos mais uma alta de juros é mais provável do que a manutenção das taxas, diante da persistência das pressões inflacionárias.
Conclusão
O fim formal da guerra é uma boa notícia de longo prazo, mas não trouxe alívio imediato. A inflação brasileira segue acima da meta mesmo após o terceiro corte seguido da Selic, e o novo Fed adotou tom mais duro, reduzindo o diferencial de juros que sustentava o capital estrangeiro no Brasil e pressionando o real e o Ibovespa. O Copom reconheceu que a atividade acelerou no primeiro trimestre, mas o mercado de trabalho já perde força; equilíbrio que vai pautar a próxima decisão, em 4 e 5 de agosto.
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