A semana de 1 a 5 de junho de 2026 chegou com dois recados claros: a guerra ainda não acabou e suas consequências nos preços ainda não terminaram de chegar.
Na segunda-feira (1º de junho), o Irã suspendeu todas as comunicações com os EUA por meio de mediadores, enterrando o otimismo da semana anterior sobre o acordo de paz. O petróleo voltou a pressionar, o capital estrangeiro saiu do Brasil e o Ibovespa abriu junho com queda de 0,91%, fechando a 172.197 pontos, o nível mais baixo desde janeiro. Já são três meses consecutivos de perdas na bolsa e mais de 16 mil pontos perdidos desde o início da guerra. No front da inflação, o Boletim Focus registrou a 12ª alta consecutiva do IPCA projetado para 2026, que chegou a 5,09%, saindo de 3,91% em fevereiro, antes do conflito. Na sexta-feira (5), o payroll americano de maio criou 172 mil vagas contra expectativa de apenas 85 mil, derrubando os mercados emergentes e empurrando o dólar acima de R$ 5,15. No lado positivo, a produção industrial brasileira avançou 0,7% em abril, a quarta alta consecutiva, e o BCE subiu os juros pela primeira vez desde 2023, confirmando que a guerra mudou a direção da política monetária europeia.

1. Inflação: Focus registra 12ª alta consecutiva: IPCA chega a 5,09% e PMI industrial sinaliza contração
Boletim Focus divulgado na segunda-feira (1º de junho) trouxe a 12ª alta consecutiva nas projeções do IPCA para 2026, uma sequência que não tem precedente desde o período mais agudo da pandemia.
A estimativa para o IPCA passou de 5,04% para 5,09%, marcando essa alta. No caso do IGP-M, a projeção para 2026 avançou de 5,91% para 6,00%, acumulando 13 semanas consecutivas de alta.
O que está por trás dessa sequência de altas? Três fatores principais: o petróleo ainda acima de US$ 100 o barril, que pressiona combustíveis e fretes; a guerra no Oriente Médio, que mantém a incerteza sobre os preços de energia globais; e a inflação de serviços rodando próxima de 6% ao ano no Brasil, o componente mais difícil de controlar porque depende do mercado de trabalho e do consumo das famílias, não do petróleo.
O acumulado de deterioração é expressivo: em fevereiro, antes da guerra, o IPCA projetado para 2026 era de 3,91%. Em pouco mais de três meses, o mercado revisou essa estimativa para 5,09%, uma alta de 1,18 ponto percentual. O teto da meta é de 4,50%. O IPCA projetado está 0,59 ponto percentual acima desse limite, e o dado oficial de maio, a ser divulgado em junho, pode confirmar esse estouro na prática.
2 Juros: Selic em 14,50%, mercado aguarda Copom de junho com dados piores do que os esperados
A Selic permanece em 14,50% ao ano. Com o Copom marcado para 17 e 18 de junho, a semana foi de crescente tensão sobre o que o Banco Central fará diante de um cenário que piorou nas últimas semanas.
O Fundo Monetário Internacional avaliou que manter a flexibilidade nas próximas etapas da política monetária no Brasil é justificável dada a elevada incerteza e as novas pressões inflacionárias decorrentes dos altos preços globais da energia, calculando que a economia crescerá 2,5% no médio prazo. Em relatório divulgado após visita de equipe da instituição ao país, o FMI disse que a economia do Brasil tem permanecido resiliente diante de múltiplos choques e que o crescimento vai se recuperar em 2026, após desacelerar em 2025.
O recado do FMI é relevante: ao recomendar “flexibilidade” na política monetária, o fundo sinaliza que o Banco Central brasileiro acertou ao manter o ciclo de cortes gradual e que não seria prudente acelerar o ritmo neste momento. O mercado projeta a Selic em 13,25% ao fim de 2026, quase 2 pontos percentuais acima do que se estimava antes da guerra e o Copom de junho deverá confirmar um novo corte de 0,25 ponto percentual, levando a taxa para 14,25%.
3. Crescimento Econômico: Produção industrial avança 0,7% em abril, quarta alta consecutiva
Em meio ao cenário desafiador, um dado positivo sobre a atividade econômica brasileira chegou na quarta-feira (3).
Em abril de 2026, a produção industrial nacional avançou 0,7% frente a março, quarta taxa positiva consecutiva, acumulando neste período expansão de 4,4%. Em relação a abril do ano passado, a indústria ampliou a produção em 2,7%, após avançar 4,4% em março.
O resultado foi bem recebido pelo mercado e o ministro da Fazenda, Dario Durigan, aproveitou para reforçar o otimismo com a economia. Durigan disse que a economia brasileira no segundo trimestre de 2026 vai “de novo surpreender”. “Deveria aguardar um segundo trimestre na mesma linha. Muita gente estava pessimista, dizendo que viria ruim. Vamos de novo surpreender no segundo trimestre de 2026″, afirmou.
A quarta alta consecutiva da produção industrial é um sinal de resiliência importante: mesmo com juros em 14,50%, inflação acima de 5% nas projeções e guerra no Oriente Médio, a indústria brasileira manteve a trajetória de recuperação iniciada no início do ano. O acumulado de 4,4% em quatro meses é o melhor resultado desde 2024.
4. Mercado de Capitais: Ibovespa inicia junho com queda expressiva e acumula mais de 16 mil pontos perdidos desde o início da guerra
Junho começou com o pé esquerdo para o Ibovespa. A semana foi marcada por novas quedas, saída de capital estrangeiro e o impacto combinado da má notícia sobre o acordo EUA-Irã e do payroll americano.
Na primeira sessão de junho, o Ibovespa registrou nova queda de 0,91%, fechando a 172.197,46 pontos, o nível mais baixo desde 21 de janeiro de 2026. Já são três meses consecutivos de perdas e, nos últimos 30 pregões, apenas 9 terminaram positivos. Desde o início da guerra no Irã, foram perdidos mais de 16 mil pontos.
Na terça (2 de junho), o índice conseguiu interromper a sequência negativa, subindo após cinco quedas consecutivas. O alívio durou pouco. Na quarta (3 de junho), o humor voltou a azedar com o agravamento dos conflitos no Oriente Médio e a saída de capital estrangeiro, o Ibovespa despencou mais de 2% no dia, devolvendo os ganhos da véspera. O movimento refletiu um fenômeno que vem se repetindo ao longo das últimas semanas: o capital estrangeiro deixa o Brasil e retorna para Wall Street sempre que as tensões geopolíticas se intensificam, pressionando o índice independentemente dos fundamentos locais.
Na sexta-feira (5de junho), o payroll americano de maio com 172 mil vagas criadas contra expectativa de apenas 85 mil, derrubou os ativos emergentes e empurrou o Ibovespa para baixo, encerrando uma semana que começou mal e terminou pior. O índice acumula perdas relevantes desde as máximas históricas de abril, e o ambiente de curto prazo segue desafiador enquanto o acordo de paz não for formalizado e o petróleo não ceder de forma sustentada.
5. Câmbio: Dólar dispara para R$ 5,15 na sexta com payroll americano acima do esperado
O dólar fechou com forte alta na sexta-feira (5 de junho) acima dos R$ 5,15, após a divulgação dos dados de emprego nos EUA. O número de empregos criados nos EUA aumentou em 172 mil em maio, bem acima dos 85 mil esperados pelo consenso de mercado. A moeda americana acumula ganhos de 2,27% frente ao real na primeira semana de junho, após avanço de 1,82% em maio. No ano, as perdas do dólar chegaram a superar 10% quando a taxa de câmbio rondava R$ 4,90 no início de maio, mas agora são de 6,04%.
A moeda tem se mantido relativamente estável perto de R$ 5,00 por dólar durante quase dois meses. Olhando para o futuro, o real deverá enfraquecer gradualmente à medida que a campanha para as eleições de outubro se intensifica. Em seis meses, a moeda é estimada em R$ 5,20, de acordo com a mediana das estimativas de 26 estrategistas de câmbio consultados entre 1 e 3 de junho. Em um ano, o real é estimado a R$ 5,30 por dólar.
O impacto do payroll no câmbio brasileiro tem uma lógica simples: quando os EUA criam muitos empregos, o Fed tem menos motivos para cortar juros. Juros americanos altos por mais tempo atraem capital global para os EUA e esse capital sai de economias emergentes como o Brasil. O efeito imediato é a valorização do dólar e a queda do real.
EUA: Acordo com o Irã suspende comunicações, payroll surpreende e Fed mantém cautela.
A semana americana foi marcada por dois eventos que moveram os mercados em direções opostas. Na segunda-feira (1º de junho), o Irã suspendeu todas as comunicações com os EUA por meio de mediadores, em protesto contra ataques israelenses no Líbano, jogando por terra o otimismo da semana anterior sobre o acordo de paz. A notícia levou à revisão das expectativas de cortes de juros, fortalecimento do dólar e aumento da aversão a risco, impactando diretamente os ativos de mercados emergentes, incluindo o Brasil. Na quinta-feira (4 de junho), Jerome Powell presidiu sua última reunião no Fed e o banco central americano manteve os juros entre 3,50% e 3,75%, como esperado, sem sinalizar qualquer movimento à frente.
A grande surpresa veio na sexta-feira (5 de junho). Os Estados Unidos criaram 172.000 novas vagas não-agrícolas em maio, bem acima da estimativa de consenso de 80.000 e da pesquisa da Reuters, de 85.000. A taxa de desemprego manteve-se estável em 4,3%. O resultado é o que os economistas chamam de “boa notícia que vira má notícia”: um mercado de trabalho tão forte reduz ainda mais as chances de corte de juros pelo Fed e aumenta o risco de uma alta de juros nos EUA. A projeção do mercado é de que os juros sejam mantidos no intervalo atual de 3,50% a 3,75% até o fim de 2026, diante da combinação de mercado de trabalho aquecido, inflação pressionada e incertezas sobre o conflito no Oriente Médio.
China: OPEP+ considera aumento de produção para julho e 26 navios cruzam Ormuz
A OPEP+ — grupo que reúne os principais países produtores de petróleo do mundo, incluindo Arábia Saudita, Rússia e Iraque, controlando cerca de 40% da produção global deve aprovar novo aumento de produção para julho, sinalizando retorno gradual à normalidade apesar do fechamento do Estreito de Ormuz. Para a China, mais oferta significa petróleo mais barato e menos pressão sobre seus custos industriais. O país depende de Ormuz para cerca de 50% do petróleo importado e segue recebendo tratamento preferencial do Irã, que coordena a passagem de navios de bandeira chinesa mesmo com o canal praticamente fechado para o restante do mundo.
Essa posição privilegiada não é por acaso. A China é o principal comprador do petróleo iraniano e mantém canais diplomáticos diretos com Teerã, independentemente do estado das negociações com os EUA. Mesmo após a suspensão das comunicações entre EUA e Irã na segunda-feira (1º de junho), que colocou em risco o acordo de princípio da semana anterior, Pequim seguiu operando nos bastidores com total estabilidade. É essa diplomacia discreta que garante à China um papel insubstituível na resolução do conflito e que explica por que qualquer acordo de paz duradouro precisará, inevitavelmente, passar por Pequim.
Zona do Euro. BCE sobe juros pela primeira vez desde 2023, alta de 0,25 ponto na reunião de junho
A grande decisão da semana no front europeu veio na quinta-feira (4): o BCE realizou a reunião de junho, a mais esperada em anos, e confirmou a alta de juros que o mercado precificava.
A inflação anual da zona do euro saltou para 3% em abril, bem acima da meta de 2% do banco, e espera-se um aumento ainda maior, já que a guerra do Irã levou os preços do petróleo à máxima em quatro anos. Os mercados financeiros precificavam aumentos dos juros em junho e julho, seguidos por pelo menos mais um movimento no outono, com base na premissa de que o BCE estará interessado em acabar rapidamente com qualquer espiral de inflação, principalmente porque foi criticado por agir tardiamente em 2022.
Os empréstimos bancários para empresas da zona do euro cresceram no ritmo mais rápido em três anos em abril, mostraram dados do BCE, ampliando uma aceleração gradual, mas constante, pouco antes da alta das taxas.
A decisão do BCE de subir os juros é histórica: foi a primeira alta desde 2023, encerrando um longo ciclo de estabilidade e cortes que havia levado as taxas europeias para 2%. Com a alta de 0,25 ponto percentual, a taxa de depósito do BCE passou para 2,25%. O banco deixou claro que novas altas estão no horizonte, a depender da evolução da inflação e do conflito no Oriente Médio.
Conclusão
A semana foi de retrocesso. O acordo de paz com o Irã voltou à estaca zero após a suspensão das comunicações, o Ibovespa acumula mais de 16 mil pontos perdidos desde o início da guerra, o IPCA projetado para 2026 chegou a 5,09%, a 12ª alta consecutiva e acima do teto da meta, o dólar voltou a R$ 5,15 e o BCE subiu os juros pela primeira vez desde 2023. Nos EUA, o payroll de maio com 172 mil vagas criadas, o dobro do esperado, eliminou qualquer chance de corte de juros pelo Fed em 2026.
Do lado positivo, os fundamentos brasileiros seguem firmes: a produção industrial avançou 0,7% em abril, a quarta alta consecutiva, acumulando 4,4% no período. O FMI projeta crescimento de 2,5% para o Brasil no médio prazo. E o Copom de 17 e 18 de junho deverá realizar novo corte de 0,25 ponto percentual, levando a Selic para 14,25%. O ciclo de afrouxamento, embora lento, segue em curso
Estamos acompanhando de perto a evolução deste cenário e faremos os devidos ajustes na estrutura de alocação de recursos sempre que as condições assim exigirem, preservando a segurança e a solvência do regime.
Estrutura de Alocação de Recursos
A estrutura de alocação foi definida para que o RPPS preserve o patrimônio e consiga crescer de forma consistente no longo prazo. Como o regime paga benefícios continuamente, a carteira precisa suportar períodos de estabilidade e crise sem comprometer sua solvência.
A renda fixa concentra a maior parte dos recursos porque oferece previsibilidade e menor oscilação. Dentro dela, a divisão por prazos é essencial:
• Curto prazo garante liquidez imediata;
• Médio prazo reduz impactos de mudanças nos juros;
• Longo prazo protege contra a inflação e captura ganhos quando o mercado melhora. Esse arranjo responde ao comportamento da curva de juros, que remunera prazos distintos de forma diferente. Assim, o RPPS evita que uma mudança abrupta afete toda a carteira ao mesmo tempo.
A renda variável entra para impulsionar o crescimento no longo prazo. Embora mais volátil, ela permite capturar valor de empresas, setores e ativos reais. A diversificação entre ações, multimercados e fundos imobiliários reduz riscos e amplia fontes de retorno.
A parcela de investimentos no exterior funciona como proteção estrutural. Ela reduz a dependência de eventos exclusivamente brasileiros e amplia o acesso a mercados e setores globais, diminuindo o impacto de crises locais.
Em síntese, a carteira combina três pilares: segurança na renda fixa, crescimento via renda variável e proteção com exposição internacional. Essa abordagem fortalece a capacidade do RPPS de cumprir suas obrigações e preservar recursos no tempo.

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