NOSSA VISÃO: Semana de 4 a 8 de Maio de 2026

A primeira semana de maio de 2026 foi marcada pelo colapso da trégua entre Estados Unidos e Irã, após ataques nos Emirados Árabes que levaram o petróleo a ultrapassar a barreira dos US$ 110 o barril. Esse choque geopolítico travou as exportações chinesas e pressionou a inflação global, forçando os grandes bancos centrais a uma postura mais rígida. Enquanto Jerome Powell manteve os juros americanos entre 3,50% e 3,75% sem sinais de queda, a Europa já discute novos aumentos para junho para frear a inflação de 3%.


No Brasil, o impacto foi sentido na deterioração das expectativas de longo prazo. Embora o câmbio tenha resistido abaixo dos R$ 5,00, o Boletim Focus registrou a oitava alta seguida na projeção do IPCA para 2026, agora em 4,89%. O dado mais alarmante para a gestão de recursos é a descontrole em das expectativas para 2028, sinalizando que o mercado perdeu a confiança na convergência da inflação mesmo em horizontes distantes. Esse cenário de preços em alta e bolsa em queda coloca em xeque o ciclo de cortes da Selic e impõe desafios severos para o cumprimento das metas atuariais dos RPPS, exigindo uma revisão defensiva nas estratégias de alocação.





1 Inflação: Focus registra oitava alta consecutiva: IPCA projetado a 4,89% e mercado já vê Selic em dois dígitos em 2029.


A deterioração das expectativas de inflação no Boletim Focus de 4 de maio de 2026 trouxe um alerta crítico para a gestão de ativos. O IPCA projetado para 2026 atingiu 4,89%, consolidando a oitava alta consecutiva e evidenciando o choque provocado pelo conflito entre EUA e Irã, que elevou a estimativa em quase 1 ponto percentual desde fevereiro. Esse movimento não é isolado, com o IGP-M também escalando para 5,50%, refletindo a pressão do petróleo sobre toda a cadeia de custos, desde os fretes até os alimentos.


O ponto de maior gravidade para o horizonte de investimentos, contudo, é a mudança na percepção de longo prazo: pela primeira vez, o mercado projeta a Selic em dois dígitos até 2029. Essa precificação de um ambiente de juros altos por tempo prolongado sinaliza que o mercado perdeu a confiança em uma normalização rápida da economia após o conflito. Para o gestor de RPPS, isso traduz um cenário de restrição monetária persistente, onde as metas atuariais tornam-se mais difíceis de serem alcançadas e a volatilidade exige uma postura defensiva e estratégica na alocação de recursos.


2 Juros: Ata do Copom surpreende com tom duro: inflação fora do controle chega a 2028 e cortes da Selic ficam em risco.


A divulgação da ata do Copom no dia 5 de maio trouxe uma mensagem muito mais rigorosa do que o mercado esperava, alterando as perspectivas para o futuro dos juros no Brasil. Embora o Banco Central tenha confirmado a redução da Selic para 14,50%, o texto detalhado da ata revelou uma preocupação profunda com a inflação a longo prazo. Pela primeira vez na história recente, a autoridade monetária sinalizou que as expectativas de preços estão “desancoradas” (ou seja, fora da meta) até 2028, um horizonte muito mais distante do que o BC costuma utilizar para calibrar suas decisões.


Essa mudança de tom ocorre porque os efeitos econômicos da guerra no Oriente Médio estão se mostrando mais persistentes do que o previsto, contaminando as projeções para além de 2027. Na prática, para o gestor de RPPS, isso significa que o otimismo anterior deu lugar à cautela. Aquele ciclo de queda de juros que prometia levar a Selic para 11% ao final de 2026 foi frustrado; agora, a estimativa é que a taxa termine o ano em 13,25%, com o risco real de ficar ainda mais alta. Em resumo, embora os cortes de juros devam continuar, eles serão feitos em um ritmo muito mais lento (“conta-gotas”) e pararão em um patamar bem mais elevado do que o planejado antes do conflito.


3 Crescimento Econômico: Guerra reabre feridas: petróleo volta acima de US$ 100 e atividade sob pressão.


O cenário global se complicou com a quebra do cessar-fogo entre EUA e Irã, resultando em novos ataques nos Emirados Árabes e no bloqueio do Estreito de Ormuz, por onde passa um quinto do suprimento mundial de petróleo. Como consequência, o barril voltou a ser negociado acima de US$ 110, levando o Banco Mundial a projetar uma alta de 24% nos preços de energia em 2026, o maior patamar desde a invasão da Ucrânia. No Brasil, essa carestia energética pressiona diretamente os custos de frete e alimentos, corroendo o poder de compra e ameaçando o consumo das famílias, que é o grande motor da nossa economia.


Por outro lado, o setor de serviços brasileiro surge como um importante “colete à prova de balas” contra a crise externa. Em fevereiro de 2026, o volume de serviços registrou uma variação positiva de 0,1%, atingindo o topo histórico da série e ficando 20% acima do nível registrado em fevereiro de 2020. Essa resiliência é fundamental, pois atua como um amortecedor para a atividade econômica nacional, compensando parte da instabilidade internacional e garantindo que o crescimento doméstico não pare totalmente diante do cenário inflacionário global.


4. Mercado de Capitais: Quarta semana negativa em maio – Ibovespa não consegue sustentar altas com guerra renovada.


O Ibovespa iniciou o mês de maio sob forte pressão das tensões no Oriente Médio, registrando queda de 0,92% na segunda-feira (4) e fechando aos 185.600 pontos. Esse movimento consolidou a quarta semana consecutiva de perdas, marcando uma correção de aproximadamente 6% em relação ao topo histórico de mais de 199 mil pontos alcançado em abril. Atualmente, o índice oscila na faixa entre 186 mil e 188 mil pontos, refletindo uma saída de capital estrangeiro motivada pelo cenário global, e não por uma piora direta nos fundamentos da economia brasileira.


Ao longo da semana, o mercado dividiu suas atenções entre a divulgação da ata do Copom na terça-feira (05 de maio) e a safra de resultados financeiros das empresas. Apesar do clima de cautela generalizada, houve um respiro positivo na sexta-feira (08 de maio), quando o índice conseguiu encerrar o dia em alta, sustentado principalmente pelo desempenho dos grandes bancos e do setor de consumo. Esse avanço pontual reforça a visão de analistas de que a baixa recente é uma reação externa ao conflito, enquanto a estrutura das companhias nacionais segue apresentando números que servem de suporte para o mercado.


5. Câmbio: Dólar oscila abaixo de R$ 5 e fecha a semana a R$ 4,89.


O câmbio brasileiro demonstrou uma resiliência surpreendente ao se manter abaixo de R$ 5,00, mesmo com o petróleo acima de US$ 110 e a retomada das tensões globais. Na sexta-feira (08 de maio), o dólar comercial recuou 0,59%, fechando a R$ 4,894, com análises técnicas já projetando a moeda no patamar de R$ 4,79. Esse desempenho positivo reflete uma tendência sólida iniciada em abril, mês em que a divisa caiu 4,38%, acumulando uma valorização do real de aproximadamente 9% no decorrer de 2026.


O principal fator que sustenta essa força do real é o grande diferencial de juros entre o Brasil e os Estados Unidos, que atrai o investidor estrangeiro. Com a Selic em 14,50% contra os juros americanos entre 3,50% e 3,75%, o Brasil permanece como um destino lucrativo para o capital internacional. Diante dessa estrutura favorável, as projeções do Itaú BBA foram ajustadas para R$ 5,15 ao final de 2026, indicando que os analistas preveem uma valorização consistente da nossa moeda ao longo de todo o ano, apesar do cenário externo desafiador.


EUA: Powell faz sua (provavelmente) última reunião no Fed e mantém juros mais uma vez.


Na quarta-feira (06 de maio), o Federal Reserve (Fed) manteve os juros americanos entre 3,50% a 3,75%, patamar que se mantém estável desde dezembro de 2025. A decisão foi influenciada pelo cenário de incerteza gerado pelo petróleo acima de US$ 100, o que dificulta a previsão entre uma recessão econômica ou uma nova escalada inflacionária. O período também marca a transição na liderança do banco central, com a saída de Jerome Powell e a provável chegada de Kevin Warsh, enquanto a dirigente Beth Hammack, do Fed de Cleveland, reforçou à rádio WOSU que as taxas devem permanecer elevadas por um longo tempo, descartando cortes imediatos.


No campo geopolítico, a tensão aumentou com o lançamento do Projeto Liberdade na segunda-feira (04 de maio), uma iniciativa de Donald Trump para escoltar navios retidos no Estreito de Ormuz. A medida gerou um confronto diplomático e militar direto com o Irã, que emitiu alertas severos contra a entrada de forças dos EUA na região. Essa disputa estratégica serviu como o principal motor para a volatilidade nos mercados globais, mantendo os preços do petróleo sob forte pressão e as bolsas em estado de alerta máximo diante dos riscos de um desdobramento militar.


China: Mantém juros pelo 11º mês consecutivo e reduz meta de crescimento para 2026.


A China optou pela estabilidade ao manter suas taxas de juros de referência inalteradas pelo 11º mês seguido, mesmo após registrar um crescimento de 5% no primeiro trimestre de 2026. Embora esse desempenho tenha superado os 4,5% do período anterior e atingido o teto das expectativas, o governo chinês adotou uma postura de cautela histórica ao reduzir a meta de crescimento anual para a faixa entre 4,5% e 5%, o patamar menos ambicioso estabelecido desde a década de 1990.


Apesar do início de ano positivo, os dados de março já mostram as cicatrizes dos conflitos globais: o crescimento das exportações desabou para 2,5%, vindo de um ritmo de 21,8% no primeiro bimestre, devido à instabilidade nas rotas marítimas. Além disso, os preços de fábrica saíram da deflação pela primeira vez em mais de três anos, trazendo o risco de uma inflação de custos que prejudica a produção. Para o Brasil, a manutenção do crescimento chinês acima de 4,5% é fundamental, pois garante a demanda por soja, minério de ferro e petróleo, sustentando a balança comercial e impulsionando indiretamente os ativos de risco no Ibovespa.


Zona do Euro. Inflação chega a 3% em abril, a maior desde setembro de 2023, e BCE se prepara para agir.


A zona do euro viveu uma semana de “curto-circuito” econômico, com a inflação dando um salto que mudou completamente o tom do discurso oficial. Joachim Nagel, presidente do Bundesbank e membro do BCE, alertou que os efeitos da guerra no Oriente Médio serão duradouros. Segundo dados da Eurostat, a inflação ao consumidor disparou de 2,6% em março para 3% em april de 2026, atingindo o maior patamar desde setembro de 2023. Esse avanço afasta o bloco da meta oficial de 2% e sinaliza que o custo de vida pode permanecer elevado enquanto o conflito persistir, exigindo uma postura mais rígida das autoridades monetárias.


O grande dilema agora é que o Banco Central Europeu (BCE) vinha em uma trajetória de estímulo, tendo realizado oito cortes de juros desde junho de 2025 para tentar reanimar uma economia fragilizada. No entanto, a aceleração para 3% força o banco a um possível “cavalo de pau” em sua estratégia. Nagel já sinalizou que a reunião de junho será o divisor de águas: se as novas projeções não mostrarem uma melhora significativa, o BCE poderá ser obrigado a subir os juros novamente. Para o mercado, isso significa que a prioridade mudou de “ajudar o crescimento” para “combater o incêndio dos preços”, mesmo que isso custe uma recessão mais profunda na Europa.


Conclusão.


A semana consolidou o fim do cessar-fogo no Oriente Médio, elevando o petróleo acima de US$ 110 o barril e empurrando a projeção do IPCA de 2026 para 4,89% (a 8ª alta consecutiva). A ata do Copom divulgada na terça-feira (5) revelou um descontrole das metas de inflação até 2028, fazendo com que o mercado já preveja juros em dois dígitos em 2029. Com isso, o ciclo de cortes da Selic, que antes do conflito era projetado para atingir 11%, foi severamente reduzido diante de um cenário de preços pressionados e incertezas geopolíticas duradouras.


Por outro lado, indicadores de resiliência ajudam a equilibrar o quadro: o dólar fechou a semana a R$ 4,89 e o setor de serviços atingiu o topo histórico em fevereiro, enquanto o setor de locação e consumo registrou lucros 45% maiores que no início de 2025. O crescimento de 5% da China no 1º trimestre também sustenta a demanda por commodities brasileiras. Para o gestor, o foco deve estar em proteger o capital com NTN-Bs contra a inflação acima de 4,5% e observar a correção de 6% na bolsa como oportunidade, aguardando as decisões do Copom e do BCE em junho.


Estrutura de Alocação de Recursos.


A estrutura de alocação foi definida para que o RPPS preserve o patrimônio e consiga crescer de forma consistente no longo prazo. Como o regime paga benefícios continuamente, a carteira precisa suportar períodos de estabilidade e crise sem comprometer sua solvência.


A renda fixa concentra a maior parte dos recursos porque oferece previsibilidade e menor oscilação. Dentro dela, a divisão por prazos é essencial:
• Curto prazo garante liquidez imediata;
• Médio prazo reduz impactos de mudanças nos juros;
• Longo prazo protege contra a inflação e captura ganhos quando o mercado melhora. Esse arranjo responde ao comportamento da curva de juros, que remunera prazos distintos de forma diferente. Assim, o RPPS evita que uma mudança abrupta afete toda a carteira ao mesmo tempo.


A renda variável entra para impulsionar o crescimento no longo prazo. Embora mais volátil, ela permite capturar valor de empresas, setores e ativos reais. A diversificação entre ações, multimercados e fundos imobiliários reduz riscos e amplia fontes de retorno.


A parcela de investimentos no exterior funciona como proteção estrutural. Ela reduz a dependência de eventos exclusivamente brasileiros e amplia o acesso a mercados e setores globais, diminuindo o impacto de crises locais.


Em síntese, a carteira combina três pilares: segurança na renda fixa, crescimento via renda variável e proteção com exposição internacional. Essa abordagem fortalece a capacidade do RPPS de cumprir suas obrigações e preservar recursos no tempo.




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