Nossa Visão 09/03/2026

A semana de 02 a 06 de março de 2026 foi marcada pela tensão entre boas notícias domésticas e turbulências externas. No Brasil, os dados foram majoritariamente positivos: o PIB de 2025 foi confirmado em +2,3%, o CAGED trouxe 112 mil vagas acima do esperado, o rendimento médio do trabalhador atingiu recorde histórico e o Focus sinalizou Selic em 12% ao final do ano. O país se aproximava com confiança do Copom de março, que prometia dar início ao esperado ciclo de cortes de juros.

No cenário externo, porém, a semana foi pesada. O conflito EUA-Irã, o bloqueio do Estreito de Ormuz e o petróleo em trajetória de alta criaram um ambiente de aversão ao risco que atingiu bolsas de Nova York a Seul, forçou a China a calibrar suas metas de crescimento para baixo e colocou o BCE e o Fed em posição de espera e cautela.






1. Inflação: prévia da inflação surpreende, mas tendência de queda segue preservada

A semana começou com dados do Boletim Focus, divulgado na segunda-feira (2 de março) pelo Banco Central. A projeção do IPCA para 2026 permaneceu estável em 3,91%, enquanto a estimativa de crescimento do PIB ficou igualmente estável em 1,82%. A expectativa para a Selic em 2026 caiu para 12,00%, acumulando duas semanas consecutivas de queda.


Na última semana de fevereiro, o IPCA-15 — indicador que serve como prévia da inflação oficial, surpreendeu ao subir 0,84%, quase o dobro do esperado. Apesar disso, no acumulado de 12 meses a inflação recuou de 4,50% para 4,10%, mostrando que o processo de desaceleração dos preços continua. A meta oficial é de 3%, com tolerância de até 4,5%.



2 Juros: mercado se prepara para o início do ciclo de cortes em março

Em janeiro, o Copom manteve a Selic em 15% ao ano, o maior nível em quase 20 anos (desde julho de 2006), e sinalizou que iniciaria o ciclo de cortes na reunião de março. Para quem não é do mercado financeiro, a Selic é a taxa básica de juros da economia brasileira, definida a cada 45 dias. Quando sobe, o crédito fica mais caro, o consumo desacelera e os preços tendem a cair; quando cai, ocorre o inverso: o dinheiro fica mais barato, a economia aquece e os investimentos se valorizam. É como um “termostato” da economia.

A reunião decisiva estava marcada para os dias 17 e 18 de março, e todos os acontecimentos da semana foram interpretados à luz dessa expectativa. O secretário do Tesouro Nacional, Rogério Ceron, afirmou em 2 de março que a alta do petróleo, provocada pelo conflito EUA-Irã, não deveria impedir o primeiro corte da Selic. O mercado, porém, estava dividido: alguns esperavam um corte de 0,25 ponto percentual (mais cauteloso), outros de 0,50 ponto percentual (mais intenso). O Boletim Focus projetou a Selic em 12,00% ao final de 2026, indicando um ciclo de cortes de cerca de 3 pontos percentuais ao longo do ano , cenário estratégico para os RPPS, que podem aproveitar para alongar prazos em renda fixa e garantir taxas ainda elevadas antes da queda dos juros.



3. Crescimento Econômico: PIB confirma desaceleração em 2025, mas mercado de trabalho surpreende positivamente

Na terça-feira, dia 3 de março, o IBGE divulgou os resultados do PIB de 2025. No 4º trimestre, houve alta de 0,1% em relação ao trimestre anterior e avanço de 1,8% frente ao mesmo período de 2024. No acumulado do ano, o PIB cresceu 2,3%, alcançando R$ 12,7 trilhões em valores correntes. Todas as atividades econômicas registraram crescimento: Agropecuária (11,7%), Serviços (1,8%) e Indústria (1,4%). Para comparação, em 2024 o PIB havia crescido 3,4%, mostrando que os juros elevados, com a Selic em 15%, frearam o ritmo da economia, especialmente no segundo semestre de 2025.


Ainda na terça-feira, o Ministério do Trabalho divulgou o CAGED de janeiro. O Brasil abriu 112.334 vagas formais, resultado de 2.208.030 admissões e 2.095.696 desligamentos, superando a expectativa de 92.000 vagas. Com isso, o estoque de empregos formais subiu para 48.577.979. Quatro setores tiveram saldo positivo: Indústria (+54.991), Construção (+50.545), Serviços (+40.525) e Agropecuária (+23.073); apenas o Comércio ficou negativo, por efeito sazonal. A taxa de desocupação subiu levemente de 5,1% para 5,4%, ainda em patamar historicamente baixo, enquanto o rendimento médio real chegou a R$ 3.652, o maior já registrado pelo IBGE. Esse mercado de trabalho aquecido fortalece a renda das famílias, mas também exige atenção do Banco Central, já que maior consumo pode pressionar os preços e dificultar o controle da inflação.



4. Mercado de Capitais: conflito no Irã derruba bolsas globais e provoca pior semana do Ibovespa desde 2022

A semana foi marcada pela turbulência causada pelo conflito EUA-Irã, que impactou os mercados globais desde a abertura de segunda-feira (2 de março). As bolsas asiáticas registraram fortes quedas, com o índice sul-coreano Kospi despencando 7,24%, seu pior desempenho em 19 meses. Na Europa, o STOXX 600 caiu 3,08%, atingindo o nível mais baixo em mais de um mês. Nos Estados Unidos, os principais índices também recuaram: Dow Jones 0,83%, S&P 500 0,94% e Nasdaq 1,02%.


No Brasil, o Ibovespa também sentiu os efeitos, mas com comportamento distinto. A Petrobras subiu 3,49%, renovando máximas históricas, impulsionada pela alta do petróleo, cujo barril Brent avançou 8,5% na semana. Em contrapartida, a Embraer caiu 8,05% após divulgar projeções de receita para 2026 abaixo das expectativas. Esse contraste reflete um padrão típico em crises energéticas: empresas ligadas ao petróleo se valorizam, enquanto outros setores sofrem. No fechamento, o Ibovespa acumulou sua pior performance semanal desde 2022, e a B3 anunciou ajustes nos horários de negociação a partir de 09 de março, devido ao início do horário de verão nos EUA.



5. Câmbio: real reverte parte da valorização de fevereiro com aversão ao risco geopolítico

O dólar foi fortemente pressionado ao longo da semana pelo cenário de guerra no Oriente Médio, que elevou a aversão ao risco global e provocou saída de capital de mercados emergentes, incluindo o Brasil.

Partindo de cerca de R$ 5,13 ao final de fevereiro, quando o real havia sido uma das moedas mais valorizadas do mundo naquele mês, o dólar chegou a superar R$ 5,32 durante a semana. No entanto, na sexta-feira (6 de março), o dado de emprego fraco nos EUA aliviou a pressão. Após oscilar acima dos R$ 5,30 em alguns momentos da manhã, o dólar se firmou em baixa durante a tarde da sexta-feira, com exportadores aproveitando as cotações mais altas para vender moeda e com o enfraquecimento da divisa americana também no exterior. O dólar à vista fechou a sessão em queda de 0,88%, a R$ 5,24. Ainda assim, a primeira semana de guerra no Oriente Médio foi desastrosa para o real, com a moeda norte-americana acumulando alta de 2,08% no período.



EUA: conflito no Oriente Médio e empregos negativos colocam o Fed numa encruzilhada

A semana americana foi dominada por três grandes protagonistas: a guerra no Oriente Médio, os dados do mercado de trabalho e as tarifas comerciais. O conflito com o Irã, deflagrado em 28 de fevereiro com a “Operação Fúria Épica”, continuou a movimentar os mercados ao longo de toda a semana. Com o Estreito de Ormuz, corredor por onde passa cerca de 20% do petróleo mundial, bloqueado pelo Irã, os preços do barril dispararam. Investidores se preocuparam com o choque inflacionário que pode se seguir à crise energética. Com o Estreito de Ormuz fechado ao tráfego marítimo, um aumento nos preços do petróleo pode rapidamente se espalhar para a economia em geral, complicando as perspectivas já instáveis para o Federal Reserve, à medida que os índices de inflação elevados se acumulam.


O Fed (banco central americano) se viu, assim, diante de um dilema clássico: cortar juros para estimular uma economia que já dá sinais de fraqueza, ou mantê-los elevados para conter a inflação que o petróleo caro inevitavelmente trará? Essa dúvida se aprofundou na sexta-feira (6 de março), quando o relatório de empregos de fevereiro foi divulgado. A economia americana perdeu 92.000 postos de trabalho fora do setor agrícola em fevereiro, quando economistas consultados pela Reuters previam a abertura de 59.000 vagas. O mercado de trabalho está se estabilizando depois de ter tropeçado em 2025 em meio à incerteza decorrente das tarifas do presidente Donald Trump.


A leitura foi clara: com empregos no vermelho e petróleo nas alturas, o Fed ficou sem uma direção óbvia. A incerteza foi o sentimento dominante em Wall Street durante toda a semana e isso se refletiu em volatilidade elevada nos ativos globais, incluindo o mercado brasileiro.



China: Congresso Nacional define meta de crescimento mais cautelosa para 2026

A China foi palco da abertura do Congresso Nacional do Povo (CNP), evento anual que define as metas econômicas do país. O governo estabeleceu a meta de expansão do PIB entre 4,5% e 5% para 2026, a mais baixa desde os anos 1990, reconhecendo desafios como consumo interno moderado, investimento desaquecido e debilidade do setor imobiliário. Em 2025, a economia chinesa avançou 5%, apoiada por um superávit comercial recorde de US$ 1,2 trilhão, mesmo diante da guerra tarifária com os Estados Unidos.


Para contextualizar, desde a pandemia a China vinha perseguindo metas de “cerca de 5%”. Ao adotar a faixa de 4,5% a 5%, Pequim admite os ventos contrários: setor imobiliário fragilizado, consumo das famílias moderado e tensões comerciais com os EUA. Além disso, o governo definiu uma meta de déficit orçamentário em 3,0% do PIB, acima da meta de cerca de 2,8% do ano anterior — sinalizando disposição em gastar mais para sustentar o crescimento.



Zona do Euro. inflação sob controle, mas crise energética eleva cautela do BCE

Na Europa, a semana combinou dois movimentos opostos: de um lado, a inflação seguia em trajetória benigna, com projeções confortáveis para o restante do ano; de outro, a crise energética no Oriente Médio trouxe um novo fator de risco que pode pressionar preços e adiar novos cortes de juros. No início de fevereiro, a pesquisa do BCE com analistas profissionais havia traçado um cenário favorável: a inflação na zona do euro deverá cair abaixo de 2% em 2026 e voltar exatamente à meta em 2027. A pesquisa prevê uma inflação de 1,8% neste ano e 2,0% no próximo. O crescimento econômico foi levemente revisado para cima em 2026, com projeção de 1,2%.


O BCE vinha mantendo sua taxa de depósito em 2,00% nas últimas reuniões, após um ciclo intenso de cortes ao longo de 2025. O banco central dos 20 países que compartilham o euro havia cortado os juros em um total de 2 pontos percentuais no ciclo anterior, mas tem decidido pela manutenção desde então A taxa de depósito é o juro que o BCE paga (ou cobra) dos bancos comerciais quando eles deixam dinheiro estacionado no banco central por um dia, funcionando como piso para os juros de curto prazo.

Entretanto, o conflito no Oriente Médio e o encarecimento do petróleo trouxeram uma variável nova: a Europa, fortemente dependente de importações de energia, pode enfrentar mais inflação nos próximos meses. Isso coloca o BCE em posição de espera, condicionando qualquer corte adicional de juros à evolução dos preços do petróleo e ao impacto real do conflito sobre a atividade econômica do bloco.



Conclusão

Entre os dias 02 e 06 de março, o cenário econômico foi marcado por uma combinação incomum: notícias positivas no Brasil contrastaram com fortes turbulências externas. Essa dualidade — fundamentos sólidos internamente e instabilidade intensa no exterior — coloca o gestor de RPPS diante de uma questão central: até que ponto o bom momento doméstico pode resistir aos choques vindos de fora?

O Brasil entrou nessa crise geopolítica em posição defensiva mais favorável do que em episódios anteriores. O PIB de 2025 confirmado em +2,3%, o CAGED de janeiro com 112 mil vagas acima do esperado, o rendimento médio dos trabalhadores no maior patamar histórico e a Selic projetada em 12% ao fim de 2026 refletem uma economia com fundamentos mais equilibrados. Além disso, o país é exportador líquido de energia, o que lhe confere proteção natural frente ao encarecimento do petróleo, ao contrário da Europa e da Ásia, que sofrem diretamente com o Estreito de Ormuz bloqueado.


Ainda assim, o ambiente externo não pode ser ignorado. O conflito EUA-Irã, deflagrado em 28 de fevereiro, trouxe incertezas de horizonte imprevisível. O petróleo mais caro pressiona a inflação global, coloca Fed e BCE em posição de espera e drena capital dos mercados emergentes, o que se traduziu em dólar acima de R$ 5,32 e na pior semana do Ibovespa desde 2022. Para o RPPS, esse contexto reforça a necessidade de uma carteira sólida, capaz de absorver choques externos sem comprometer a solvência previdenciária.



Estrutura de Alocação de Recursos

A estrutura de alocação foi definida para que o RPPS preserve o patrimônio e consiga crescer de forma consistente no longo prazo. Como o regime paga benefícios continuamente, a carteira precisa suportar períodos de estabilidade e crise sem comprometer sua solvência.

A renda fixa concentra a maior parte dos recursos porque oferece previsibilidade e menor oscilação. Dentro dela, a divisão por prazos é essencial:
• Curto prazo garante liquidez imediata;
• Médio prazo reduz impactos de mudanças nos juros;
• Longo prazo protege contra a inflação e captura ganhos quando o mercado melhora. Esse arranjo responde ao comportamento da curva de juros, que remunera prazos distintos de forma diferente. Assim, o

RPPS evita que uma mudança abrupta afete toda a carteira ao mesmo tempo.

A renda variável entra para impulsionar o crescimento no longo prazo. Embora mais volátil, ela permite capturar valor de empresas, setores e ativos reais. A diversificação entre ações, multimercados e fundos imobiliários reduz riscos e amplia fontes de retorno.


A parcela de investimentos no exterior funciona como proteção estrutural. Ela reduz a dependência de eventos exclusivamente brasileiros e amplia o acesso a mercados e setores globais, diminuindo o impacto de crises locais.

Em síntese, a carteira combina três pilares: segurança na renda fixa, crescimento via renda variável e proteção com exposição internacional. Essa abordagem fortalece a capacidade do RPPS de cumprir suas

obrigações e preservar recursos no tempo.



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