Retrospectiva
Mais uma vez o noticiário político deu o tom da semana. Após aceitar fazer novas mudanças e desidratar novamente o projeto que renegocia as dívidas dos estados com a União, o governo conseguiu aprovar o texto base da proposta no plenário da Câmara dos Deputados. Um dia depois de o ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, garantir que manteria duas contrapartidas no projeto, o texto foi votado sem uma delas. O relator da proposta, deputado Esperidião Amin (PP-SC), decidiu suprimir do texto, com o aval do Palácio do Planalto, o item que proibia os estados de concederem reajustes para servidores públicos durante dois anos. O recuo ocorreu para evitar uma derrota no plenário e garantir a aprovação do projeto, que passou com 282 votos favoráveis e 140 contrários. O texto segue, agora, para o Senado.
Com isso, a única contrapartida para o alongamento das dívidas dos estados com a União por 20 anos será o teto para os gastos públicos, vinculados à inflação do ano anterior.
Já no Senado, foi vencida mais uma etapa do processo de impeachment da presidente Dilma Rousseff. O plenário decidiu, por 59 votos favoráveis e 21 contrários, que a presidente afastada vai a julgamento na Casa. A partir de agora, Dilma torna-se ré e o Senado decidirá se a presidente cometeu crime de responsabilidade no cargo.
O placar indica que há maioria suficiente para confirmar o afastamento definitivo de Dilma na última fase do julgamento, prevista para ocorrer no fim deste mês.
Em relação aos principais fatos da semana, na economia internacional, especificamente na China, foi divulgada a inflação ao consumidor, que desacelerou para 1,8% em julho em termos anuais, em linha com as expectativas do mercado. Já os preços ao produtor recuaram 1,7% em julho, após queda de 2,6% no mês anterior.
Na zona do euro, a agência Eurostat divulgou que a produção industrial cresceu 0,6% em junho ante maio, já considerados ajustes sazonais. Na comparação anual, a produção do bloco avançou 0,4% em junho.
O Dax, índice da bolsa alemã acumulou a maior alta entre seus pares, e terminou a semana com avanço de 3,34%. O FTSE-100, da bolsa inglesa subiu 1,80% e o índice S&P 500, da bolsa norte-americana prosseguiu em alta e terminou a semana com valorização de 0,05%.
No Brasil, em relação à inflação, o IPCA atingiu 0,52% em julho. No mês anterior, o índice havia chegado a 0,35%. Com este resultado, o acumulado no ano foi para 4,96%, menor que os 6,83% registrados em igual período no ano anterior. O vilão da inflação foi o item alimentos, que junto com Bebidas representa 65% da cesta, com destaque para as altas do feijão e do leite.
Já o IGP-M, considerada a inflação do aluguel, teve sua primeira prévia de agosto divulgada pela FGV. O índice apresentou variação zero, ante avanço de 0,55% na primeira prévia de julho. Pesou para a neutralidade do índice o IPA – Índice de Preços ao Produtor Amplo, que compõe o IGP-M, que apresentou variação de -0,13%, com o recuo do subgrupo “alimentos processados”, cuja taxa de variação passou de 3,54% para 0,19%.
Em relação a atividade, foi divulgado pelo IBGE o número de vendas no varejo do Brasil, que cresceu 0,1% em junho, acima do esperado, mas ainda sem sinais consistentes de recuperação mais robusta. Entretanto, o número reforça o cenário de que a economia entrou em uma fase de estabilização. Segundo o IBGE, três das oito atividades pesquisadas mostraram expansão em junho na comparação com maio, com destaque para tecidos, vestuários e calçados (+0,7%) e outros artigos de uso pessoal e doméstico (+0,8%). Na ponta oposta, o segmento de hipermercados, supermercados, produtos alimentícios, bebidas e fumo registrou contração de 0,4% no período.
Na semana, o índice Ibovespa teve alta de 1,11%, elevando a alta no ano para 34,49%. Já o dólar acumulou alta de 0,05% no período, enquanto o IMA-B Total subiu no mês 1,86%, elevando a alta no ano para 21,27%.
Comentário Focus
No primeiro relatório Focus divulgado após os dados mais recentes do Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) as previsões para a inflação em 2016 pioraram. Em meio à forte pressão nos preços dos alimentos, os economistas do mercado elevaram de 7,20% para 7,31% a projeção mediana para o índice este ano. Quatro semanas atrás, estava em 7 26%. Para 2017, após uma série de cortes nas projeções, o mercado manteve em 5,14%, nesta semana, a previsão para o IPCA. Um mês antes, estava em 5,30%.
O resultado foi que os economistas do mercado passaram a prever menos cortes para a Selic ainda em 2016. Ao invés dos 13,50% ao ano, previstos na semana passada, a projeção é de que a Selic chegue ao fim do ano em 13,75%. Desde julho do ano passado, a taxa está em 14,25% ao ano. Para 2017, a Selic foi mantida em 11% ao ano pela sétima semana seguida.
Quanto à atividade econômica, os analistas das instituições financeiras ajustaram, pela terceira semana consecutiva, a estimativa de encolhimento da economia. Desta vez, a projeção de queda do Produto Interno Bruto (PIB), soma de todos os bens e serviços produzidos no país, passou de 3,23% para 3,20%. Para 2017, a projeção de crescimento segue em 1,1% há quatro semanas seguidas.
Na mesma linha as estimativas para a produção industrial melhoraram. Para 2016, a queda prevista passou de 6,00% para retração de 5,95%. Para o próximo ano, a projeção de alta subiu de 0,50% para 0,75%.
Mesmo com o recuo acumulado do dólar ante o real neste ano, as projeções do mercado financeiro para a balança comercial seguem fortes. Nesta semana, porém, houve leve recuo nas perspectivas para 2016. Pelo relatório, a estimativa de superávit comercial este ano passou de US$ 50,44 bilhões para US$ 50,00 bilhões. Um mês atrás, estava em US$ 50,52 bilhões. Para 2017, as estimativas no Focus foram de US$ 50,00 bilhões para US$ 49,84 bilhões – ante US$ 49,94 bilhões de um mês antes.
Para o Investimento Estrangeiro Direto, as expectativas mantiveram-se em US$ 65 bilhões para este ano e para o próximo.
Perspectiva
Para os próximos dias, será importante continuar de olho no Congresso, onde ocorrerá a votação dos destaques da renegociação das dívidas com os estados que não foram votados na semana passada, no âmbito do projeto de Lei nº 257/2016.
No Senado, o plenário pode votar a PEC 31/2016, que trata da Desvinculação das Receitas da União – DRU, uma das mais importantes medidas do ajuste fiscal, e que prorroga até 2023 a permissão para que o executivo federal utilize livremente parte da sua arrecadação, ampliando de 20% para 30% a utilização de todos os impostos e contribuições sociais.
No campo externo, destaque para a divulgação da ata do Fomc, o banco central americano, que poderá dar sinais de quando o colegiado elevará a taxa de juros nos EUA. O último payroll animou, mas o mercado entende que novos sinais de robustez serão necessários para convencer os membros do FED de que a economia americana tomou a trajetória expansiva. Ainda assim, o cenário externo pesará na decisão, na medida em que há preocupação com a alta do dólar no mercado internacional por conta de uma economia mundial extremamente líquida.
Na quarta-feira (16), será divulgada a Pnad Contínua, e o mercado estará atento aos principais indicadores do relatório, tais como o desemprego referente ao segundo trimestre do ano, renda do trabalhador e número de pessoas ocupadas. Números parecidos com a última pesquisa poderão indicar que o pior momento da recessão chegou ao fim.
Conforme já mencionado nos relatórios periódicos anteriores, há um ambiente favorável a uma nova rodada de valorização dos ativos de maior risco. Internamente, ocorrerá ainda este mês a decisão sobre o impeachment da presidente afastada, Dilma Rousseff. Se confirmado o afastamento em definitivo, abre espaço para que o atual governo construa uma agenda positiva no sentido de promover as reformas necessárias para a retomada do crescimento econômico. A equipe econômica, capitaneada pelo ministro da Fazenda Henrique Meirelles, tem a confiança do mercado. A confiança do consumidor e dos empresários voltou a crescer, e o apoio do Congresso em votações recentes a favor dos ajustes sinaliza o compromisso político com as reformas estruturais.
O cenário externo também é favorável, dado que os recursos dos investidores estão aplicados lá fora em ativos com rentabilidade pouco atrativas, muitas abaixo de zero.
No momento em que as taxas de juros estão nas mínimas históricas no exterior, o apetite pelos juros brasileiros, cuja diferença em relação aos praticados nos países desenvolvidos é a maior em dez anos, deverá resultar no ingresso de novos e significativos recursos externos para a compra dos títulos brasileiros, movimento que deverá se intensificar ao longo do tempo, na medida em que as perspectivas de melhora do rating externo do país se intensifiquem.
Neste contexto, alteramos nossa recomendação para uma exposição de 45% nos vértices mais longos (dos quais 10% direcionados para o IMA-B 5+ e/ou IDKA 20A e 35% para o IMA-B Total), 25% para os vértices médios (IRF-M Total, IMA-B 5 e IDkA 2A) e 5% para o vértice mais curto, representado pelo IRF-M 1, e mesmo pelo DI, face a constituir uma reserva estratégica de liquidez e proteção das carteiras.
Permanece a recomendação de que, com a devida cautela e respeitados os limites das políticas de investimento é oportuna a avaliação de aplicações em produtos que envolvam a exposição ao risco de crédito (FIDC e FI Crédito Privado, por exemplo), em detrimento das alocações em vértices mais longos. A atual escassez de crédito para a produção e o consumo tem gerado prêmios de risco, que possibilitam uma remuneração que supera as metas atuariais.
Quanto à renda variável, recomendamos uma exposição de no máximo 25%, já incluídas as alocações em fundos multimercado (5%), em fundos de participações – FIP (5%) e em fundos imobiliários FII (5%).
Por fim, cabe lembrarmos que as aplicações em renda fixa, por ensejarem o rendimento do capital investido, devem contemplar o curto, o médio e o longo prazo, conforme as possibilidades ou necessidades dos investidores. Já as realizadas em renda variável, que ensejam o ganho de capital, as expectativas de retorno devem ser direcionadas efetivamente para o longo prazo.
Indicadores Diários – 15/08/2016
Índices de Referência – Julho/2016
Deixe um Comentário