A gestão dos recursos dos Regimes Próprios de Previdência Social envolve um desafio estrutural: tomar decisões em um ambiente marcado por incertezas, volatilidade e múltiplas variáveis que escapam ao controle dos gestores. Nesse contexto, é essencial reconhecer que todo investimento, independentemente da classe de ativo, está sujeito a riscos e oscilações, inclusive aqueles tradicionalmente associados à renda fixa. Ainda assim, observa-se, com frequência, uma tendência preocupante de se avaliar decisões de investimento exclusivamente com base em seus resultados posteriores, especialmente quando estes são negativos.
Essa forma de análise, embora recorrente, parte de uma premissa tecnicamente frágil: a de que o desempenho de um ativo é, por si só, um indicativo da qualidade da decisão que o originou. Ao adotar esse raciocínio, desconsidera-se um elemento central da gestão de investimentos, o fato de que decisões são tomadas com base nas informações disponíveis à época, e não à luz de eventos que só se materializaram posteriormente. Trata-se, portanto, de uma avaliação retrospectiva que ignora o contexto original da decisão e, ao fazê-lo, compromete a própria lógica da análise.
No mercado financeiro, não há garantia de retorno. Essa afirmação, embora elementar, parece ser frequentemente relativizada na prática. Nem mesmo ativos considerados conservadores estão imunes a oscilações, reprecificações ou eventos de crédito. A regulamentação aplicável aos RPPS, ao estabelecer limites, critérios de elegibilidade e diretrizes de alocação, não tem como objetivo eliminar riscos, o que seria inviável, mas sim organizá-los de forma compatível com o perfil previdenciário dos recursos. Em outras palavras, a norma não promete resultados; ela estrutura o processo decisório.
É justamente nesse ponto que surge uma distorção relevante. Ao se analisar um investimento com base exclusivamente em seu desfecho, acaba-se, ainda que de forma implícita, exigindo do gestor uma capacidade de antecipação absoluta, como se fosse possível prever, com precisão, o comportamento futuro dos mercados. Essa expectativa não apenas é irreal, como também desconsidera a própria natureza dos investimentos financeiros, que envolvem necessariamente a convivência com incertezas.
Diante disso, a avaliação da atuação dos RPPS deveria partir de um eixo mais consistente: a qualidade do processo decisório. A diligência prévia à aplicação, que envolve a análise do regulamento dos fundos, a verificação do enquadramento normativo, a aderência à Política de Investimentos, a avaliação dos prestadores de serviço e a identificação dos riscos envolvidos, constitui o verdadeiro parâmetro para aferir a adequação de uma decisão. Quando esses elementos estão presentes e devidamente fundamentados, há evidência de um processo estruturado, alinhado às normas e às boas práticas de governança.
Ignorar esse conjunto de fatores e reduzir a análise ao resultado obtido significa, na prática, desconsiderar todo o arcabouço técnico que sustenta a gestão previdenciária. Mais do que isso, cria-se um ambiente em que o risco deixa de ser gerido de forma consciente e passa a ser evitado de maneira indiscriminada, o que também pode ser prejudicial, especialmente diante da necessidade de busca por retornos compatíveis com as metas atuariais dos regimes.
Cabe destacar, ainda, que o desempenho dos ativos é influenciado por uma série de fatores externos, como mudanças na política monetária, variações de inflação, eventos de crédito, alterações regulatórias e choques macroeconômicos. Esses elementos impactam diretamente a rentabilidade dos investimentos e, em muitos casos, não poderiam ser previstos no momento da alocação. Avaliar decisões desconsiderando esse contexto equivale a tratar o mercado como um ambiente determinístico, quando, na realidade, ele é essencialmente probabilístico.
Isso não significa, evidentemente, que resultados negativos devam ser automaticamente desconsiderados ou relativizados. Situações que envolvam ausência de diligência, descumprimento normativo ou incompatibilidade com a Política de Investimentos devem, sim, ser objeto de análise e, quando cabível, de responsabilização. No entanto, essa avaliação precisa ser construída a partir do processo que levou à decisão, e não exclusivamente a partir de seu desfecho.
Nesse sentido, a governança assume papel central. A adequada documentação das análises, o registro das decisões, a fundamentação técnica e o acompanhamento contínuo dos investimentos não apenas contribuem para a qualidade da gestão, como também permitem que as decisões sejam compreendidas em sua integralidade, inclusive em cenários adversos. A transparência, nesse contexto, não é apenas uma exigência formal, mas um instrumento essencial para a correta interpretação das escolhas realizadas.
Em última instância, a gestão dos recursos dos RPPS não pode ser reduzida a uma lógica binária de acerto ou erro baseada exclusivamente no resultado. Trata-se de um processo complexo, que envolve análise, julgamento técnico e tomada de decisão sob incerteza. Ignorar essa realidade e adotar uma leitura simplificada dos investimentos não fortalece o controle, ao contrário, fragiliza a compreensão sobre como decisões devem, de fato, ser avaliadas.
Reconhecer que não há investimento sem risco, e que a qualidade de uma decisão não se confunde com o seu resultado, é um passo fundamental para uma análise mais justa, técnica e alinhada à natureza da gestão previdenciária.
Por: Nahida Lakis
Equipe de Investimentos
A semana de 20 a 24 de abril foi marcada por uma reviravolta dramática de humor. Se na semana anterior o mercado comemorava sinais de paz no Oriente Médio, esta semana trouxe o movimento inverso: o cessar-fogo ficou cada vez mais frágil, o Irã voltou a fechar o Estreito de Ormuz, o petróleo disparou novamente e os ativos de risco sofreram. O Ibovespa, que havia tocado os 199 mil pontos em 14 de abril, encerrou a sexta-feira em 190.745 pontos, chegando a operar abaixo dos 190 mil pontos na mínima do dia, menor nível desde 8 de abril. Uma semana que começou com cautela e terminou com desconfiança.
É importante notar que esta foi uma semana encurtada no Brasil pelo feriado de Tiradentes nos dias 20 e 21 de abril (segunda e terça-feira), de forma que a bolsa brasileira operou apenas três pregões: quarta (22), quinta (23) e sexta (24). Ainda assim, os movimentos foram intensos e o ambiente externo praticamente dominou o cenário.

1 Inflação: projeções sobem pela sexta semana consecutiva e IPCA esperado atinge 4,80%
O Boletim Focus de abril funciona como um sinal de alerta semanal para a economia, registrando a sexta alta consecutiva nas projeções da inflação (IPCA) para 2026. Na leitura mais recente, a estimativa subiu para 4,80%, ultrapassando o teto da meta estabelecida, que é de 4,5%. Esse movimento mostra que o mercado está revisando seus cálculos de forma constante, refletindo uma pressão de preços mais forte e persistente do que o previsto no início do ano.
A causa principal dessa deterioração é a valorização do petróleo Brent, que superou os US$ 105 por barril devido às tensões no Oriente Médio. Como o custo da energia e dos transportes impacta toda a cadeia produtiva, a resposta do mercado foi elevar a projeção da taxa Selic para 13% ao fim de 2026. Isso indica que, para conter o avanço da inflação, os juros devem permanecer em patamares elevados por mais tempo, limitando o espaço para o ciclo de cortes que era aguardado.
2 Juros: Copom se aproxima com Selic em 14,75% e mercado espera corte menor
Com a taxa Selic atualmente em 14,75%, a atenção do mercado se volta para a reunião do Copom nos dias 28 e 29 de abril. A expectativa consensual é de um corte cauteloso de 0,25 ponto percentual, ajuste que deve se repetir na reunião de junho. Essa mudança nas projeções, que antes previam uma redução maior de 0,50 ponto para o meio do ano, sinaliza que os economistas agora esperam um ritmo de queda dos juros mais lento e moderado.
O principal motivo para esse “pé no freio” é a inflação projetada em 4,80%, patamar que supera o teto da meta de 4,5%, somada à pressão constante da alta do petróleo.
3. Crescimento Econômico: PIB projetado em 1,86% e dólar volta a pressionar
As projeções para o crescimento econômico em 2026 apresentaram um leve ajuste positivo, elevando a expectativa do PIB para 1,86%. Embora o avanço de 0,01 ponto percentual seja modesto, ele indica uma tendência de estabilidade, reforçada pelo fortalecimento recente do real, que fez a projeção do câmbio recuar de R$ 5,37 para R$ 5,30 até o fim do ano.
Contudo, o cenário de crescimento enfrenta o desafio da alta do petróleo Brent, que atingiu a marca de US$ 107, pressionando diretamente os custos de fretes e insumos. No front externo, os dados de março revelaram um déficit de US$ 6,0 bilhões em transações correntes, que funcionam como a “conta corrente” do país ao registrar o saldo de tudo o que o Brasil compra, vende e paga ao exterior em mercadorias, serviços e rendas, acumulando um saldo negativo de 2,71% do PIB em 12 meses.
4. Mercado de Capitais: Ibovespa recua 2,55% na semana e volta abaixo dos 191 mil pontos
O mercado acionário brasileiro enfrentou uma semana desafiadora, com o Ibovespa acumulando uma perda de 2,55%, apesar de ainda sustentar uma alta de 18,38% no ano e 1,75% no mês de abril. O único pregão positivo ocorreu na segunda-feira, 20 de abril, quando o índice fechou em leve alta de 0,20%, atingindo 196.132 pontos. Contudo, o cenário inverteu-se nos dias seguintes e, na sexta-feira, 24 de abril, o índice encerrou aos 190.745,02 pontos (queda de 0,33%), chegando a operar abaixo dos 190 mil pontos pela primeira vez desde 8 de abril.
O principal gatilho para essa instabilidade foi o fechamento do Estreito de Ormuz pelo Irã, o que provocou uma disparada nos preços do petróleo: o Brent subiu cerca de 13% e o WTI 12% na semana. Esse movimento gerou uma forte aversão global ao risco, impactando índices americanos como o S&P 500 (-0,24%) e o Nasdaq (-0,26%). No cenário local, enquanto as ações da Braskem se destacaram positivamente com alta de 5,28% na sexta-feira, o peso negativo do setor de energia foi determinante para pressionar o índice para baixo.
5. Câmbio: volta acima de R$ 5 no meio da semana e encerra em R$ 4,98
O câmbio funcionou como o termômetro da volatilidade na semana, iniciando a segunda-feira, 20 de abril, com o dólar cotado a R$ 4,97. O real chegou a atingir 4,95 por dólar, seu nível mais forte desde março de 2024, impulsionado pelas altas taxas de juros internas e pela valorização do petróleo. O conflito entre Irã e EUA, que suspendeu fluxos de óleo no Oriente Médio por quase dois meses, acabou favorecendo a entrada de moeda estrangeira no Brasil, consolidando o país como um exportador alternativo estratégico.
Porém, o agravamento das tensões geopolíticas fez a moeda americana ultrapassar a barreira dos R$ 5,00 na quinta-feira, 23 de abril. Apesar desse estresse global, o real demonstrou resiliência e a moeda encerrou a sexta-feira em R$ 4,98, refletindo o suporte oferecido pelo diferencial de juros brasileiro. Mesmo com as oscilações da semana, o dólar ainda mantém um recuo expressivo acumulado frente ao real no ano de 2026, sinalizando que os fundamentos domésticos têm ajudado a amortecer os choques externos.
EUA: Impasse no Oriente Médio domina a semana e Fed fica ainda mais “data-dependent” (depende de dados)
A economia americana viveu uma semana de contrastes, impulsionada pelos resultados sólidos da temporada de balanços do 1T26. O setor de tecnologia e semicondutores, com destaque para a Intel, superou as expectativas de lucro e levou o S&P 500 e o Nasdaq a novas máximas históricas. Na sexta-feira, esses índices encerraram o pregão com ganhos de 0,80% e 1,63%, respectivamente, mostrando que o vigor das empresas ainda consegue equilibrar as preocupações do cenário macroeconômico.
No entanto, o cenário monetário segue nebuloso após a sabatina de Kevin Warsh, que reforçou uma postura do Federal Reserve estritamente dependente de dados, sem compromissos claros com o cronograma de queda das taxas. Embora o Fed tenha sinalizado que um corte ainda é possível em 2026, a narrativa de “juros altos por mais tempo” ganhou força diante da inflação persistente e da instabilidade geopolítica. Com dirigentes adotando um tom mais hawkish (rigoroso), as projeções de múltiplos cortes perderam tração, tornando o início do afrouxamento monetário cada vez mais incerto.
China: Banco central mantém juros e país monitora impacto da guerra nas exportações
A economia chinesa iniciou a semana processando o crescimento de 5% do PIB no 1T26, mas com cautela em relação ao segundo semestre. O FMI revisou a projeção de crescimento do país para 4,4% em 2026, ficando levemente abaixo da meta oficial de 4,5% a 5%. Embora o governo possa utilizar estímulos políticos para alcançar esse objetivo, especialistas alertam que o aumento do investimento público, sem uma recuperação sólida da demanda interna, pode intensificar pressões deflacionárias e aumentar a dependência das exportações.
O cenário externo, especialmente o impasse no conflito envolvendo o Irã, ameaça o crescimento global e a capacidade de outras nações absorverem os produtos chineses. Para o Brasil, esse movimento é vital, pois a China é o principal destino de commodities como petróleo, soja e minério de ferro. Uma desaceleração chinesa mais severa reduziria a demanda por esses itens, pressionando os preços para baixo e impactando diretamente o saldo comercial e a estabilidade do câmbio brasileiro.
Zona do Euro. Banco Central Europeu preparado para reunião de 29 e 30 de abril em cenário de estagflação
A Europa enfrenta atualmente um cenário de estagflação, caracterizado pela combinação desafiadora de crescimento econômico fraco e inflação em ascensão. Em março de 2026, a inflação na Zona do Euro foi revisada para 2,6%, atingindo o nível mais alto desde julho de 2024 e acelerando em relação aos 1,9% registrados em fevereiro. Esse movimento foi impulsionado por pressões inflacionárias nas principais potências do bloco, com destaque para Alemanha (2,8%), Espanha (3,4%), França (2%) e Itália (1,6%), evidenciando que o choque nos custos de energia está sobrecarregando tanto a indústria quanto os consumidores.
Diante desse diagnóstico, o BCE (Banco Central Europeu) se prepara para sua reunião nos dias 29 e 30 de abril. Embora a expectativa majoritária seja pela manutenção das taxas de juros em 2%, a persistência dos preços elevados mantém vivo o debate sobre uma possível alta em junho. A presidente da instituição, Christine Lagarde, ressaltou a dificuldade de traçar rotas seguras devido à natureza intermitente dos conflitos globais e bloqueios navais. Reforçando o clima de pessimismo, o índice Ifo (termômetro da economia) na Alemanha apresentou uma queda acentuada, confirmando que a maior economia europeia está perdendo fôlego sob a pressão energética e geopolítica.
Conclusão
A semana de 20 a 24 de abril foi, em essência, uma semana de volta à realidade. O mercado havia se animado com sinais de paz no Oriente Médio na semana anterior, e esta semana cobrou a conta: o Estreito de Ormuz voltou a ser bloqueado pelo Irã, o petróleo Brent encerrou acima de US$ 107 por barril, o Ibovespa recuou 2,55% e o dólar voltou a testar os R$ 5,00.
No Brasil, o Boletim Focus trouxe a sexta revisão consecutiva de alta para o IPCA, agora em 4,80% para 2026, com a Selic projetada em 13% ao fim do ano — sinal de que o mercado espera um ciclo de cortes mais lento do que o previsto antes da guerra. O Copom se reúne em 28 e 29 de abril e deve cortar os juros em apenas 0,25 ponto percentual, com cautela ditada pela pressão inflacionária.
No exterior, EUA mantiveram bolsas sustentadas pelos balanços corporativos sólidos, mas o Fed sinaliza que qualquer corte de juros dependerá dos dados. A China monitora os riscos da guerra para suas exportações. E a Europa enfrenta a estagflação com o BCE prestes a se reunir sem uma resposta clara para a equação de juros.
O recado para o gestor do RPPS é de paciência e disciplina. A volatilidade desta semana não altera os fundamentos da carteira: a renda fixa pós-fixada protege contra juros altos por mais tempo, a renda variável ainda acumula +18,38% no ano, e a exposição internacional diversifica o risco geopolítico. Seguimos monitorando cada variável e faremos os ajustes necessários sempre que as condições exigirem, preservando a segurança e a solvência do regime.
Estrutura de Alocação de Recursos
A estrutura de alocação foi definida para que o RPPS preserve o patrimônio e consiga crescer de forma consistente no longo prazo. Como o regime paga benefícios continuamente, a carteira precisa suportar períodos de estabilidade e crise sem comprometer sua solvência.
A renda fixa concentra a maior parte dos recursos porque oferece previsibilidade e menor oscilação. Dentro dela, a divisão por prazos é essencial:
• Curto prazo garante liquidez imediata;
• Médio prazo reduz impactos de mudanças nos juros;
• Longo prazo protege contra a inflação e captura ganhos quando o mercado melhora. Esse arranjo responde ao comportamento da curva de juros, que remunera prazos distintos de forma diferente. Assim, o RPPS evita que uma mudança abrupta afete toda a carteira ao mesmo tempo.
A renda variável entra para impulsionar o crescimento no longo prazo. Embora mais volátil, ela permite capturar valor de empresas, setores e ativos reais. A diversificação entre ações, multimercados e fundos imobiliários reduz riscos e amplia fontes de retorno.
A parcela de investimentos no exterior funciona como proteção estrutural. Ela reduz a dependência de eventos exclusivamente brasileiros e amplia o acesso a mercados e setores globais, diminuindo o impacto de crises locais.
Em síntese, a carteira combina três pilares: segurança na renda fixa, crescimento via renda variável e proteção com exposição internacional. Essa abordagem fortalece a capacidade do RPPS de cumprir suas obrigações e preservar recursos no tempo.
A semana de 13 a 17 de abril de 2026 começou como uma segunda-feira de nervos: as negociações de paz entre EUA e Irã haviam fracassado no fim de semana anterior, em Islamabad, e o petróleo disparava. Mas em poucas horas o clima virou. Donald Trump declarou que o Irã “quer fazer um acordo”, e o mercado respirou fundo. O Ibovespa cruzou os 198 mil pontos logo na segunda-feira, batendo novo recorde histórico. O 17º do ano, e o dólar tocou pela primeira vez em dois anos a marca simbólica abaixo de R$ 5,00. Na terça-feira, a euforia chegou ao auge: o índice alcançou 199.354 pontos na máxima intradiária, uma distância respirável dos 200 mil pontos.
Mas a semana não terminou como começou. A perspectiva de um cessar-fogo definitivo fez o petróleo despencar, e as ações da Petrobras sofreram quedas expressivas. O índice encerrou a sexta-feira em 195.733 pontos, recuando 0,81% na semana.

1 Inflação: expectativas estouram o teto da meta pela primeira vez no ano
O Boletim Focus divulgado na segunda-feira, 13 de abril pelo Banco Central revelou que a mediana das estimativas para o IPCA de 2026 subiu para 4,71%, a quinta alta consecutiva desde o início do ano e a primeira vez que essa projeção ultrapassa o teto da meta de 4,5%. Quatro semanas atrás, a estimativa estava em apenas 4,17%.
Na sexta-feira, 17 de abril, uma nova leitura do Focus já apontava para 4,80%, sexta alta consecutiva. O petróleo chegou a superar US$ 110 por barril nas semanas mais tensas do conflito, e esse choque de energia se transmitiu para combustíveis, fretes e alimentos. O grupo de alimentação, que representa mais de 20% do IPCA, absorveu boa parte desse impacto.
2 Juros: Selic em 14,75% e o Copom com data marcada para decidir
A taxa Selic permanece em 14,75% ao ano, patamar definido na reunião do Copom de 18 de março. Mas os olhos do mercado já estão voltados para a próxima reunião, marcada para 28 e 29 de abril. Essa será a primeira decisão oficial com todos os dados da guerra no Oriente Médio, o comportamento do dólar abaixo de R$ 5 e a nova leitura da inflação em mãos.
O consenso atual é de que o Copom deve cortar 0,25 ponto percentual na Selic, um passo mais cauteloso do que os 0,50 ponto que parte do mercado esperava semanas atrás. A razão é simples: com a inflação projetada acima do teto da meta, o Banco Central precisa ser cuidadoso. Cortar demais pode parecer descuido; não cortar pode sinalizar uma paralisia desnecessária num momento em que o petróleo recua.
3. Crescimento Econômico: Crescimento Econômico: PIB projetado em 1,85% e dólar fraco dá fôlego
O crescimento econômico brasileiro em 2026 segue projetado pelo mercado em 1,85%, de acordo com o Boletim Focus de 13 de abril. É uma estimativa modesta, abaixo dos 2,3% registrados em 2025, mas que reflete um equilíbrio delicado: juros ainda elevados contendo o crédito e o consumo, ao mesmo tempo em que o dólar mais fraco alivia a pressão sobre a inflação importada.
O fator mais positivo da semana para a economia real foi o câmbio. Com o dólar abaixo de R$ 5,00 pela primeira vez desde março de 2024, há uma combinação favorável em curso: custo menor de combustíveis importados, redução de insumos industriais cotados em dólar, e alívio sobre alimentos ligados ao mercado externo.
4. Mercado de Capitais: Ibovespa bate 199 mil pontos e encerra semana com leve recuo
Foi uma semana cinematográfica para a bolsa brasileira. Na segunda-feira, 13 de abril, o Ibovespa superou os 198 mil pontos e fechou em 198.000,71 pontos, o 17º recorde histórico do ano. Na terça-feira, 14 de abril, o índice chegou à máxima intradiária de 199.354 pontos, tocando de perto o nível psicológico dos 200 mil.
Mas de quarta a sexta, o índice recuou em três pregões consecutivos, impulsionado principalmente pela queda das ações da Petrobras, que chegaram a ceder perto de 7% na sexta-feira, como reação à queda do petróleo no exterior. O índice encerrou a sexta, 17 de abril, em queda de 0,55%, aos 195.733,51 pontos, acumulando recuo de 0,81% na semana.
No mês, o Ibovespa ainda acumula alta de 4,41%, e no ano sobe impressionantes 21,48%. Vale lembrar que a entrada de capital estrangeiro na B3 reforça esse cenário: até o dia 15 de abril, o mês já registrava R$ 14,6 bilhões de entrada líquida estrangeira, com o saldo no ano positivo em R$ 68 bilhões.
5. Câmbio: Dólar abaixo de R$ 5 pela primeira vez desde março de 2024
O câmbio foi o ativo mais expressivo da semana. Logo na segunda-feira (13 de abril), o dólar encerrou a R$ 4,998, quebrando pela primeira vez desde março de 2024 a barreira psicológica dos cinco reais. Na sexta-feira, 17 de abril, o dólar encerrou em R$ 4,9836, com queda de 0,53% na semana e recuo de 9,21% no ano.
O que explica essa valorização tão expressiva do real? Três vetores que se reforçam: o diferencial de juros elevado (com a Selic em 14,75%, o Brasil oferece uma das maiores taxas reais do mundo), o fluxo estrangeiro robusto para renda fixa e renda variável, e a queda do dólar globalmente (o índice DXY operava em torno de 98 pontos).
EUA: Cessar-fogo anunciado na terça, mas Ormuz ainda fechado e negociações frágeis
A semana americana foi marcada pelo início da temporada de resultados do primeiro trimestre de 2026. Na segunda-feira (13), o Goldman Sachs abriu os balanços com lucro por ação de US$ 17,55, superando a estimativa média dos analistas de US$ 16,49. Na terça (14), foram JPMorgan, Citigroup, Wells Fargo e Johnson & Johnson. O JPMorgan registrou crescimento de receita e lucro de cerca de 7%, reforçando a resiliência do sistema financeiro americano.
No campo da política monetária, o Federal Reserve (Fed) mantém as taxas de juros estáveis. Destaque da semana foi a declaração da ex-presidente do Fed, Janet Yellen, que afirmou ver como possível um corte de juros ainda em 2026, caso o petróleo continue recuando com a reabertura do Estreito de Ormuz. O FMI, reunido em Washington nessa semana, revisou para baixo as perspectivas de crescimento global em função da guerra.
China: PIB cresceu 5% no primeiro trimestre e superou expectativas
A surpresa positiva da semana veio de Pequim. Na quinta-feira,16 de abril, o Escritório Nacional de Estatísticas da China (NBS) divulgou que o PIB chinês cresceu 5,0% no primeiro trimestre de 2026, acima dos 4,8% projetados pelos analistas. O resultado é 0,5 ponto percentual acima do desempenho do último trimestre de 2025. O valor absoluto do PIB no período somou 33,4 trilhões de yuans (aproximadamente US$ 4,87 trilhões).
O grande motor desse crescimento foi o setor de alta tecnologia, que expandiu 12,5% e respondeu por 32,6% de todo o crescimento industrial do período. Equipamentos de impressão 3D (+54%) e baterias de lítio (+40,8%) lideraram a produção.
No entanto, as vendas no varejo cresceram apenas 1,7% em março, abaixo do esperado, revelando que a demanda doméstica ainda enfrenta dificuldades. A China absorveu o impacto energético da guerra melhor que outros países asiáticos, graças às suas reservas estratégicas e diversificação de fontes de petróleo, mas o risco de desaceleração persiste se o conflito se prolongar.
Zona do Euro. Inflação salta para 2,5% em março e BCE cogita alta de juros
A Europa vive um dilema claro: a guerra no Oriente Médio provocou um choque de energia que pressionou a inflação para cima, mas a economia da zona do euro ainda apresenta crescimento frágil. O BCE manteve as taxas de juros em 2% na reunião de março, e a ata divulgada nesta semana confirmou que a tendência é manter as taxas na reunião de 29 e 30 de abril.
O mercado já antecipa novos aumentos de juros na Europa. Isso ocorre porque a inflação prevista para 2026 deu um salto, passando de 1,7% para 2,6%. Com a Euribor (termômetro do custo do dinheiro) em seus níveis mais altos, a expectativa é que o Banco Central Europeu suba os juros pelo menos duas vezes neste ano, começando em junho. O objetivo, reforçado por recomendações do FMI, é elevar a taxa em 0,50 ponto percentual ao longo do ano, para garantir que a economia não perca o equilíbrio diante da alta de preços.
Conclusão
A semana de 13 a 17 de abril entregou o que o mercado mais aguardava, novos recordes históricos, mas também lembrou que nenhum movimento de alta é linear. O Ibovespa tocou 199.354 pontos na terça-feira e encerrou a semana em 195.733 pontos, recuando 0,81%. O dólar fechou abaixo de R$ 5,00 pela primeira vez em dois anos, acumulando queda de 9,21% no ano. E o Boletim Focus, pela sexta semana seguida, revisou a inflação para cima: 4,80%, superando o teto da meta.
O cenário externo combinou surpresas positivas. PIB da China de 5%, com alertas relevantes (BCE projetando altas de juros a partir de junho e FMI revisando para baixo o crescimento global). Os EUA iniciaram a temporada de balanços do 1T26 com resultados sólidos dos grandes bancos.
O recado para o gestor do RPPS é preciso: o ambiente é de oportunidade real, mas com volatilidade que exige disciplina. A carteira estruturada nos três pilares de segurança na renda fixa, crescimento via renda variável e proteção com exposição internacional está posicionada para esse ambiente. Seguimos monitorando de perto cada variável e faremos os devidos ajustes na alocação sempre que as condições exigirem, preservando a segurança e a solvência do regime.
Estrutura de Alocação de Recursos
A estrutura de alocação foi definida para que o RPPS preserve o patrimônio e consiga crescer de forma consistente no longo prazo. Como o regime paga benefícios continuamente, a carteira precisa suportar períodos de estabilidade e crise sem comprometer sua solvência.
A renda fixa concentra a maior parte dos recursos porque oferece previsibilidade e menor oscilação. Dentro dela, a divisão por prazos é essencial:
Curto prazo garante liquidez imediata;
Médio prazo reduz impactos de mudanças nos juros;
Longo prazoprotege contra a inflação e captura ganhos quando o mercado melhora. Esse arranjo responde ao comportamento da curva de juros, que remunera prazos distintos de forma diferente. Assim, o RPPS evita que uma mudança abrupta afete toda a carteira ao mesmo tempo.
A renda variável entra para impulsionar o crescimento no longo prazo. Embora mais volátil, ela permite capturar valor de empresas, setores e ativos reais. A diversificação entre ações, multimercados e fundos imobiliários reduz riscos e amplia fontes de retorno.
A parcela de investimentos no exterior funciona como proteção estrutural. Ela reduz a dependência de eventos exclusivamente brasileiros e amplia o acesso a mercados e setores globais, diminuindo o impacto de crises locais.
Em síntese, a carteira combina três pilares: segurança na renda fixa, crescimento via renda variável e proteção com exposição internacional. Essa abordagem fortalece a capacidade do RPPS de cumprir suas obrigações e preservar recursos no tempo.
A apuração da meta atuarial é um dos pilares da gestão de investimentos nos Regimes Próprios de Previdência Social (RPPS). Ainda assim, é comum surgirem dúvidas sobre a metodologia adotada, especialmente quanto ao uso do IPCA diarizado. A discussão não é meramente técnica, mas envolve consistência conceitual, precisão financeira e aderência às melhores práticas de mercado.
A meta atuarial representa o crescimento esperado do passivo previdenciário ao longo do tempo. Trata-se, portanto, de uma variável de natureza contínua, que evolui diariamente. Nesse contexto, sua mensuração deve refletir essa dinâmica, evitando abordagens discretas que possam gerar desalinhamentos entre ativo e passivo.
Do ponto de vista financeiro, os ativos das carteiras — como títulos públicos e fundos de investimento — são marcados a mercado diariamente. Isso significa que seus retornos também são apurados em base diária. Comparar esses resultados com uma meta calculada apenas mensalmente cria distorções relevantes, comprometendo a análise de desempenho. A diarização do IPCA elimina esse problema ao alinhar a frequência da meta com a dos ativos.
Outro ponto crítico é a descontinuidade gerada pelo uso do IPCA mensal. Nesse modelo, a meta permanece estática ao longo do mês e sofre um ajuste abrupto no fechamento, o que pode gerar interpretações equivocadas — como superávits artificiais no início do período e aparentes perdas no final. A abordagem diarizada suaviza essa trajetória, proporcionando uma leitura mais fiel da performance.
Além disso, a diarização está alinhada ao princípio da capitalização composta, amplamente adotado no mercado financeiro. Tanto os juros quanto a inflação impactam os resultados de forma contínua, e a metodologia deve refletir essa realidade. Ao incorporar o IPCA de forma diária, garante-se maior aderência à dinâmica econômica e maior precisão nos cálculos.
Sob a ótica de governança, a adoção dessa metodologia fortalece a transparência e a rastreabilidade dos resultados. Órgãos de controle, como Tribunais de Contas, avaliam cada vez mais a consistência metodológica das análises. Nesse sentido, o uso do IPCA diarizado contribui diretamente para auditorias mais claras e processos decisórios mais bem fundamentados.
Por fim, há um ganho significativo na gestão de riscos. A mensuração diária permite acompanhar com maior precisão indicadores como desvio em relação à meta, tracking error e drawdown, ampliando a capacidade de reação dos gestores diante de mudanças de mercado.
Em síntese, a diarização do IPCA não é apenas uma escolha técnica, mas uma evolução necessária na gestão dos RPPS. Ela assegura consistência temporal, reduz distorções analíticas, melhora a governança e eleva o nível da gestão ao padrão dos investidores institucionais mais sofisticados. Em um ambiente cada vez mais exigente, trata-se de um diferencial — e, cada vez mais, de uma necessidade.
Por: Diego Lira de Moura
Economista | Diretor de Investimentos