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Consultoria em Investimentos

abril 20th, 2016

Nossa Visão – 18/04/2016

Retrospectiva

Sob o aspecto político, o último final de semana foi realmente singular. Pela segunda vez na história do Brasil, a Câmara dos Deputados votou a admissibilidade de um processo de impeachment, desta vez, da presidente Dilma Roussef. Assim, as articulações tanto do governo, quanto da oposição, em busca da vitória, acabaram por dominar o noticiário da semana.

Passou praticamente despercebido o aumento da tensão entre o governo federal e o dos estados, por conta de suas dívidas com a União. Ministros do Supremo Tribunal Federal – STF, concederam, na semana, liminares aos estados de Santa Catarina, Rio Grande do Sul, Minas Gerais e Rio de Janeiro permitindo-lhes pagar as dívidas conforme suas possibilidades, sem sofrer qualquer punição por parte da União, como o bloqueio no repasse de verbas. Também foi permitido a esses estados aplicar uma taxa de juros simples, ao invés de juros compostos, para saldar o que devem.

Uma análise feita pela assessoria econômica do Senado Federal, com dados de 2013, e divulgada pelo Ministério da Fazenda, estimou um impacto de R$ 313,3 bilhões nas contas públicas, se todos os estados endividados conseguirem obter na Justiça a redução da dívida, com a mudança de cálculo. A previsão é que o plenário do STF julgue no próximo dia 27 de abril, o mérito das liminares já concedidas.

Se aprovada a mudança de cálculo da dívida dos estados com a União, as aplicações financeiras que trabalham com o regime de juros compostos, como a Caderneta de Poupança, títulos do Tesouro Nacional, CDB, LCA e outras, poderão ser afetadas pela decisão. Na prática, isso afetaria todo o Sistema Financeiro Nacional, conforme alertou a Secretaria do Tesouro Nacional.

Em relação à economia internacional, o Fundo Monetário Internacional – FMI divulgou o seu Panorama Econômico Mundial 2016, em que fez a revisão de uma série de projeções divulgadas no final do ano anterior. Para este ano, reduziu a perspectiva de crescimento da economia global de 3,4% para 3,2%, da zona do euro e da Alemanha de 1,7% para 1,5%, do Reino Unido de 2,2% para 1,9% e para os EUA de 2,6% para 2,4%. Para o Brasil, estimou uma queda do PIB de 3,8% e não mais 3,5% e para a China um crescimento de 6,6%, quando a projeção anterior era de 6,3%.

Na zona do Euro, foi divulgado que a produção industrial caiu 0,8% em fevereiro, em relação ao mês anterior, mantendo, porém, uma alta de 0,8% em doze meses. O declínio foi ligeiramente maior do que os 0,7% previstos em pesquisa da Reuters com economistas. A inflação ao consumidor, tanto na região, quanto na Alemanha ficou estável, bem como no Reino Unido.

Se o DAX, índice da bolsa alemã terminou a semana subindo 4,46%, recuperando-se da queda da semana anterior, o FTSE-100, da bolsa inglesa, subiu 2,25%.

Nos EUA, os dados do Livro Bege mostraram expansão da atividade econômica em todos os distritos monitorados pelo FED, melhora do mercado de trabalho e do setor imobiliário, além do aumento dos gastos com o consumo e com investimentos. Os pedidos de auxílio desemprego, na semana anterior, retrocederam ao menor patamar desde 1973, com 253mil pedidos. No entanto, alguns dados divulgados durante a semana não foram tão positivos. As vendas no varejo encolheram 0,3%, a produção industrial 0,6%, e a inflação do consumidor (CPI) subiu apenas 0,1%, em março.

Mesmo assim, o índice S&P 500, da bolsa americana, terminou a semana com alta de 1,62%.

Na China, foi divulgado o crescimento de 6,7% do PIB, no primeiro trimestre de 2016, em relação ao mesmo período do ano anterior. Apesar de ter sido o mais fraco desde o começo de 2009, ficou dentro do esperado pelo governo e pelos analistas.

No Brasil, as vendas no varejo aumentaram 1,2% em fevereiro, em relação ao mês anterior, embora em doze meses, a queda seja de 5,3%.

No entanto, a notícia que mereceu destaque, ficou por conta da atuação do Banco Central no mercado de câmbio. Na semana, a autoridade monetária teve a sua maior intervenção da história em um período de tempo tão curto. Para evitar uma queda mais forte do dólar, com a eventual aprovação do impeachment e que prejudicaria as exportações do país, desde segunda-feira passada o BC comprou o equivalente a US$ 24 bilhões, através do mecanismo conhecido como “swap reverso”. Como resultado, o BC conseguiu estabilizar a cotação do dólar e ao mesmo tempo realizar lucro em relação aos dólares vendidos ao redor de R$ 4, através do “swap simples”. Mesmo assim, o dólar (P-Tax 800) fechou a semana com uma queda de 3,05%.

Por outro lado, embalado com a perspectiva da aprovação da admissibilidade do impeachment, o índice Bovespa terminou a semana com uma alta de 5,84%, elevando o ganho mensal para 6,34%.

Comentário Focus

O Relatório Focus, revelado ontem, apontou para nova queda na expectativa em relação a taxa Selic. As projeções indicam queda para o final de 2016 para 13,38%, ante 13,75% na semana anterior. Para 2017, as projeções foram mantidas em 12,25%. A mudança na estimativa é decorrente do aprofundamento da recessão enquanto a inflação já dá sinais de alívio.

O mercado apontou para uma nova queda das expectativas de inflação para 2016. Os economistas consultados, na média, acreditam que o IPCA subirá 7,08% neste ano e não mais os 7,14% previstos na semana anterior. Apesar da contínua trajetória de queda, a perspectiva ainda permanece bem acima do teto da meta do governo para 2016, de 4,5% com tolerância de 2 pontos percentuais. Já para 2017 a mediana aponta para inflação de 5,93%, contra 5,95% previstos no levantamento anterior, mas ainda longe do teto da meta do governo para o ano que vem, também de 4,5%, porém com tolerância de 1,5 ponto.

Quanto à atividade econômica, o mercado espera que a recessão se aprofunde ainda mais, com o PIB caindo 3,80% e não mais 3,77%. Para 2017 é esperada uma alta de 0,20% e não mais de 0,30%.

Para a produção industrial houve uma ligeira piora, que aponta uma queda de 5,80%, enquanto na semana anterior esperava-se uma queda de 5,60%. Já para a Balança Comercial, espera-se um superávit de US$ 45,51 bilhões neste ano e de US$ 50 bilhões no próximo.

Para o Investimento Estrangeiro Direto, as expectativas continuam em US$ 55 bilhões neste ano e no próximo.

Perspectiva

Na Europa, haverá reunião do Banco Central Europeu para deliberar sobre os juros e serão divulgados o índice de confiança do consumidor, o PMI industrial e o de serviços, em abril.

Nos EUA, serão divulgadas as vendas de imóveis usados e os imóveis em construção, em março e o índice de produção do FED da Filadélfia, em abril.

No Brasil, o IPC-Semanal (FGV), o IPC (Fipe), segunda quadrissemana, o IPCA-15 de abril e a Pnad Contínua Mensal, de fevereiro.

No campo da política, aprovada a admissibilidade do impeachment na Câmara, cabe agora ao Senado a sua aprovação final. Estima-se que nesta semana, serão escolhidos os membros da comissão especial em que será analisado o parecer. Caso aprovado na comissão, segue para a votação em plenário. Caso aprovado por maioria simples dos presentes, a presidente é afastada por 180 dias e assume o vice-presidente. Isso pode ocorrer até o final da primeira quinzena de maio. O julgamento final, presidido pelo Presidente do STF poderá ocorrer até meados de outubro.

Portanto, embora hoje a maior probabilidade seja a de que a presidente realmente caia, há incertezas que ainda cercam todo o processo e o tempo, que pode demorar.

Enquanto isso, as condições econômicas do país continuam a se deteriorar, principalmente pelo lado fiscal. Na última sexta-feira, o governo anunciou que além do déficit primário de R$ 97 bilhões previsto para este ano, também espera um déficit de R$ 65 bilhões em 2017. Para que essa situação não se agrave ainda mais, corremos contra o tempo.

Sob o aspecto político, é certo que o mercado financeiro continuará a se desenvolver de forma incerta e volátil. Não só por conta de como será a continuidade do processo de impeachment, como também por conta de todas as dúvidas que cercam a formação de um eventual novo governo.

Sob o aspecto econômico, embora as expectativas quanto à inflação e aos juros tenham momentaneamente recuado, os prognósticos da evolução da atividade continua a piorar, bem como os seus efeitos sobre as finanças públicas, que é a origem maior das pressões inflacionárias. Isso sem considerar a questão da dívida dos estados que será apreciada pelo STF.

Em relação às aplicações em renda fixa, predominantes nas carteiras de investimento dos RPPS, por enquanto, os fundamentos macroeconômicos não chancelam a assunção de posições mais arriscadas, como as aplicações em títulos prefixados de longa duração. Os ganhos obtidos recentemente decorreram em grande parte de mudanças repentinas de expectativas e em menor parte de fatos. Qualquer alteração brusca nas expectativas, pode facilmente reverter os ganhos.

Para a renda variável, em particular para as ações, embora os expressivos ganhos obtidos recentemente também possam ser revertidos com mudanças de expectativas, o tempo do retorno esperado é muito mais longo e a sua exposição na carteira muito menor.

Nesse contexto, mantemos nossa recomendação de expor a carteira de renda fixa aos vértices de médio prazo (IMA-B 5 e IDkA 2A) em no máximo 40%. Os demais recursos devem ser direcionados para os vértices mais curtos, ou seja, para ativos indexados ao IRFM-1, ou mesmo ao DI, já que, mesmo que o rendimento não propicie a superação da meta atuarial, o risco de perda, num cenário tão incerto, fica substancialmente reduzido.

Nas estratégias que envolvam essencialmente a exposição ao risco de crédito (FIDC e FI Crédito Privado, por exemplo), observamos que a escassez de linhas de crédito para a produção e consumo gerou uma abertura de spread (prêmio de risco) nas operações, que resultam em oportunidades interessantes para investimentos. Com a devida cautela, e respeitados os limites das políticas de investimentos, recomendamos avaliar investimentos nestes segmentos.

Na renda variável, recomendamos uma exposição de no máximo 20% para o segmento, já incluídas alocações em fundos imobiliários – FIIs e fundos em participação – FIPs, dado a falta de percepção de melhora nos fundamentos econômicos que justifique elevar ainda mais o risco da carteira.