A mensuração da rentabilidade em carteiras com múltiplos aportes e resgates é um dos principais desafios da gestão de investimentos, especialmente no contexto dos Regimes Próprios de Previdência Social (RPPS). A ausência de uma metodologia clara e consistente pode gerar distorções relevantes, comprometendo não apenas a leitura da performance real, mas também a transparência perante órgãos de controle e a qualidade da tomada de decisão.
Nesse cenário, a adoção de critérios técnicos robustos deixa de ser apenas uma escolha operacional e passa a ser um requisito essencial de governança. Uma abordagem estruturada para o cálculo da rentabilidade sobre resgates contribui diretamente para a confiabilidade das informações e para o fortalecimento dos processos de controle.
A metodologia baseada no conceito FIFO (First In, First Out) se destaca como uma das mais adequadas para esse tipo de análise. Por esse critério, os primeiros aportes realizados são considerados como os primeiros a serem resgatados. Na prática, isso significa que cada resgate é vinculado a aportes históricos específicos, permitindo que a rentabilidade seja apurada com base no custo efetivo de cada entrada de recurso.
Esse modelo assegura maior fidelidade ao histórico do investimento, além de garantir consistência na apuração dos resultados. Ao evitar médias simplificadas ou critérios genéricos, o FIFO proporciona uma visão mais precisa da performance, especialmente em carteiras com elevada movimentação.
Além disso, a metodologia está alinhada às diretrizes do IPC 14, que orienta a correta mensuração dos resultados das carteiras dos RPPS. Entre os princípios destacados estão a fidedignidade na apuração da rentabilidade, a consistência metodológica ao longo do tempo, a rastreabilidade das informações e a transparência dos critérios utilizados. Esses elementos são fundamentais para assegurar que os resultados apresentados possam ser verificados e auditados com clareza.
A integração com o Pro-Gestão RPPS reforça ainda mais a relevância dessa abordagem. A utilização de metodologias estruturadas contribui para a evolução dos níveis de governança, aprimora os processos internos e fortalece a capacidade dos institutos de atender às exigências regulatórias.
Do ponto de vista prático, a implementação desse modelo é especialmente indicada para instituições que buscam aprimorar a prestação de contas, reduzir riscos operacionais, aumentar a segurança técnica das análises e oferecer melhor suporte ao Comitê de Investimentos.
Em um ambiente cada vez mais regulado e exigente, não basta apresentar resultados — é indispensável demonstrar, com rigor técnico, como eles foram obtidos. A adoção de uma metodologia aderente às melhores práticas representa, portanto, um avanço significativo no nível de maturidade da gestão.
Mais do que uma solução técnica, trata-se de um passo estratégico: fortalecer a governança, elevar a credibilidade institucional e garantir que a gestão dos recursos previdenciários seja conduzida com precisão, transparência e responsabilidade.
Por: Diego Lira de Moura
Economista | Diretor de Investimentos
A gestão dos recursos dos Regimes Próprios de Previdência Social envolve um desafio estrutural: tomar decisões em um ambiente marcado por incertezas, volatilidade e múltiplas variáveis que escapam ao controle dos gestores. Nesse contexto, é essencial reconhecer que todo investimento, independentemente da classe de ativo, está sujeito a riscos e oscilações, inclusive aqueles tradicionalmente associados à renda fixa. Ainda assim, observa-se, com frequência, uma tendência preocupante de se avaliar decisões de investimento exclusivamente com base em seus resultados posteriores, especialmente quando estes são negativos.
Essa forma de análise, embora recorrente, parte de uma premissa tecnicamente frágil: a de que o desempenho de um ativo é, por si só, um indicativo da qualidade da decisão que o originou. Ao adotar esse raciocínio, desconsidera-se um elemento central da gestão de investimentos, o fato de que decisões são tomadas com base nas informações disponíveis à época, e não à luz de eventos que só se materializaram posteriormente. Trata-se, portanto, de uma avaliação retrospectiva que ignora o contexto original da decisão e, ao fazê-lo, compromete a própria lógica da análise.
No mercado financeiro, não há garantia de retorno. Essa afirmação, embora elementar, parece ser frequentemente relativizada na prática. Nem mesmo ativos considerados conservadores estão imunes a oscilações, reprecificações ou eventos de crédito. A regulamentação aplicável aos RPPS, ao estabelecer limites, critérios de elegibilidade e diretrizes de alocação, não tem como objetivo eliminar riscos, o que seria inviável, mas sim organizá-los de forma compatível com o perfil previdenciário dos recursos. Em outras palavras, a norma não promete resultados; ela estrutura o processo decisório.
É justamente nesse ponto que surge uma distorção relevante. Ao se analisar um investimento com base exclusivamente em seu desfecho, acaba-se, ainda que de forma implícita, exigindo do gestor uma capacidade de antecipação absoluta, como se fosse possível prever, com precisão, o comportamento futuro dos mercados. Essa expectativa não apenas é irreal, como também desconsidera a própria natureza dos investimentos financeiros, que envolvem necessariamente a convivência com incertezas.
Diante disso, a avaliação da atuação dos RPPS deveria partir de um eixo mais consistente: a qualidade do processo decisório. A diligência prévia à aplicação, que envolve a análise do regulamento dos fundos, a verificação do enquadramento normativo, a aderência à Política de Investimentos, a avaliação dos prestadores de serviço e a identificação dos riscos envolvidos, constitui o verdadeiro parâmetro para aferir a adequação de uma decisão. Quando esses elementos estão presentes e devidamente fundamentados, há evidência de um processo estruturado, alinhado às normas e às boas práticas de governança.
Ignorar esse conjunto de fatores e reduzir a análise ao resultado obtido significa, na prática, desconsiderar todo o arcabouço técnico que sustenta a gestão previdenciária. Mais do que isso, cria-se um ambiente em que o risco deixa de ser gerido de forma consciente e passa a ser evitado de maneira indiscriminada, o que também pode ser prejudicial, especialmente diante da necessidade de busca por retornos compatíveis com as metas atuariais dos regimes.
Cabe destacar, ainda, que o desempenho dos ativos é influenciado por uma série de fatores externos, como mudanças na política monetária, variações de inflação, eventos de crédito, alterações regulatórias e choques macroeconômicos. Esses elementos impactam diretamente a rentabilidade dos investimentos e, em muitos casos, não poderiam ser previstos no momento da alocação. Avaliar decisões desconsiderando esse contexto equivale a tratar o mercado como um ambiente determinístico, quando, na realidade, ele é essencialmente probabilístico.
Isso não significa, evidentemente, que resultados negativos devam ser automaticamente desconsiderados ou relativizados. Situações que envolvam ausência de diligência, descumprimento normativo ou incompatibilidade com a Política de Investimentos devem, sim, ser objeto de análise e, quando cabível, de responsabilização. No entanto, essa avaliação precisa ser construída a partir do processo que levou à decisão, e não exclusivamente a partir de seu desfecho.
Nesse sentido, a governança assume papel central. A adequada documentação das análises, o registro das decisões, a fundamentação técnica e o acompanhamento contínuo dos investimentos não apenas contribuem para a qualidade da gestão, como também permitem que as decisões sejam compreendidas em sua integralidade, inclusive em cenários adversos. A transparência, nesse contexto, não é apenas uma exigência formal, mas um instrumento essencial para a correta interpretação das escolhas realizadas.
Em última instância, a gestão dos recursos dos RPPS não pode ser reduzida a uma lógica binária de acerto ou erro baseada exclusivamente no resultado. Trata-se de um processo complexo, que envolve análise, julgamento técnico e tomada de decisão sob incerteza. Ignorar essa realidade e adotar uma leitura simplificada dos investimentos não fortalece o controle, ao contrário, fragiliza a compreensão sobre como decisões devem, de fato, ser avaliadas.
Reconhecer que não há investimento sem risco, e que a qualidade de uma decisão não se confunde com o seu resultado, é um passo fundamental para uma análise mais justa, técnica e alinhada à natureza da gestão previdenciária.
Por: Nahida Lakis
Equipe de Investimentos
A apuração da meta atuarial é um dos pilares da gestão de investimentos nos Regimes Próprios de Previdência Social (RPPS). Ainda assim, é comum surgirem dúvidas sobre a metodologia adotada, especialmente quanto ao uso do IPCA diarizado. A discussão não é meramente técnica, mas envolve consistência conceitual, precisão financeira e aderência às melhores práticas de mercado.
A meta atuarial representa o crescimento esperado do passivo previdenciário ao longo do tempo. Trata-se, portanto, de uma variável de natureza contínua, que evolui diariamente. Nesse contexto, sua mensuração deve refletir essa dinâmica, evitando abordagens discretas que possam gerar desalinhamentos entre ativo e passivo.
Do ponto de vista financeiro, os ativos das carteiras — como títulos públicos e fundos de investimento — são marcados a mercado diariamente. Isso significa que seus retornos também são apurados em base diária. Comparar esses resultados com uma meta calculada apenas mensalmente cria distorções relevantes, comprometendo a análise de desempenho. A diarização do IPCA elimina esse problema ao alinhar a frequência da meta com a dos ativos.
Outro ponto crítico é a descontinuidade gerada pelo uso do IPCA mensal. Nesse modelo, a meta permanece estática ao longo do mês e sofre um ajuste abrupto no fechamento, o que pode gerar interpretações equivocadas — como superávits artificiais no início do período e aparentes perdas no final. A abordagem diarizada suaviza essa trajetória, proporcionando uma leitura mais fiel da performance.
Além disso, a diarização está alinhada ao princípio da capitalização composta, amplamente adotado no mercado financeiro. Tanto os juros quanto a inflação impactam os resultados de forma contínua, e a metodologia deve refletir essa realidade. Ao incorporar o IPCA de forma diária, garante-se maior aderência à dinâmica econômica e maior precisão nos cálculos.
Sob a ótica de governança, a adoção dessa metodologia fortalece a transparência e a rastreabilidade dos resultados. Órgãos de controle, como Tribunais de Contas, avaliam cada vez mais a consistência metodológica das análises. Nesse sentido, o uso do IPCA diarizado contribui diretamente para auditorias mais claras e processos decisórios mais bem fundamentados.
Por fim, há um ganho significativo na gestão de riscos. A mensuração diária permite acompanhar com maior precisão indicadores como desvio em relação à meta, tracking error e drawdown, ampliando a capacidade de reação dos gestores diante de mudanças de mercado.
Em síntese, a diarização do IPCA não é apenas uma escolha técnica, mas uma evolução necessária na gestão dos RPPS. Ela assegura consistência temporal, reduz distorções analíticas, melhora a governança e eleva o nível da gestão ao padrão dos investidores institucionais mais sofisticados. Em um ambiente cada vez mais exigente, trata-se de um diferencial — e, cada vez mais, de uma necessidade.
Por: Diego Lira de Moura
Economista | Diretor de Investimentos